Conversa afiada




Mais uma vez, minha adorada Lya Luft me leva às lágrimas e à reflexão. Não sou nem serei mãe nesta encarnação e isso é condição fundamental pra que eu não conheça alguns sentimentos que só quem os têm verdadeiramente são as mães ou os pais biológicos. Isso é o que eu penso, sinto mesmo, de verdade, porque convivo com muitas mães além da minha, e percebo nelas, afetos que não reconheço. Enfim...balelas à parte, quero é oferecer pra que leiam este artigo sofrido de Lya. Penso muito e às vezes fico triste, imaginando o que virá para os meus sobrinhos e agora, para meu sobrinho-neto, Joaquim, com apenas 6 meses de vida. Me sinto impotente e aflita sem poder ajudá-los a ter um pouco mais de esperança de saber que vão realizar o que querem mesmo, lá no fundo de seus corações. Exatamente como eu consegui, com tanta ajuda, meu Pai! Eles não reclamam de nada e isso também me preocupa. Será que é assim mesmo?

O que vivi na minha infância e adolescência, até poder escolher o que queria e poderia vir a ser na vida...foi tão indescritivelmente diferente e mais leve,  menos assustador, não tive os medos reais da sobrevivência difícil, desamparada não pela falta de dinheiro (e deste também), mas pela falta de perspectiva, de qualquer visão mais real sobre o que fazer, como fazer, onde, com quem...enfim. E este artigo de Lya me levou à minha juventude em Belém, com meus pais acolhendo meus sonhos e me ajudando a realizá-los. Consegui ser cantora também por isso.

No momento, finalizo meu CD cantando Renato Russo e Legião Urbana e ontem veio aqui no meu estúdio, meu sobrinho Renan, que tem 20 e poucos anos, não conhecia ainda o Rio, é formado em Comércio Exterior, mas quer mesmo é ser músico e cantor. Mora em Belém e não tem 1 puto pra se virar sozinho, não tem trabalho, pai rico ou qualquer idéia do que queira fazer com o diploma que ganhou só pra constar. Quer sim, vir morar no Rio e tentar seguir na música. Será que vai conseguir? Meu outro sobrinho, Bernardo, foi tentar a vida em São Paulo, não conseguiu nenhum trabalho que realmente acrescentasse, onde pudesse crescer e se sustentar... vacilou junto com a namorada (que felizmente ama e que o ama também) e fizeram um filho, meu amado Joaquim. Voltaram juntos pra Belém de onde sairam há poucos anos. Ele é publicitário e com quase 30 anos, recomeça a vida num sufoco danado, agora com um filhote de 6 meses. Meu Deus! São Jorge e Santa Bárbara, que regem 2010, olhem por estes meninos!


"O que devemos aos jovens" (Lya Luft)

 

 


Fiquei surpresa quando uma entrevistadora disse que em meus textos falo dos jovens como arrogantes e mal-educados. Sinto muito: essa, mais uma vez, não sou eu. Lido com palavras a vida toda, foram uma de minhas primeiras paixões e ainda me seduzem pelo misto de comunicação e confusão que causam, como nesse caso, e por sua beleza, riqueza e ambiguidade.

Escrevo repetidamente sobre juventude e infância, família e educação, cuidado e negligência. Sobre nossa falha quanto à autoridade amorosa, interesse e atenção. Tenho refletido muito sobre quanto deve ser difícil para a juventude esta época em que nós, adultos e velhos, damos aos jovens tantos maus exemplos, correndo desvairadamente atrás de mitos bobos, desperdiçando nosso tempo com coisas desimportantes, negligenciando a família, exagerando nos compromissos, sempre caindo de cansados e sem vontade ou paciência de escutar ou de falar. Penso sobretudo no desastre da educação: nem mesmo um exame de Enem tranquilo conseguimos lhes oferecer. A maciça ausência de jovens inscritos, quase a metade deles, não se deve a atrasos ou outras dificuldades, mas ao desânimo e à descrença.

De modo que, tratando dos jovens e de suas frustrações, falo sobre nós, adultos, pais, professores, autoridades, e em quanto lhes somos devedores. O que fazem os que de maneira geral deveriam ser líderes e modelos? Os escândalos públicos que nos últimos anos se repetem e se acumulam são para deixar qualquer jovem desencantado: estudar para quê? Trabalhar para quê? Pior que isso: ser honesto para quê, se nossos pretensos líderes se portam de maneira tão vergonhosa e, ano após ano, a impunidade continua reinando neste país que tenta ser ufanista?

Tenho muita empatia com a juventude, exposta a tanto descalabro, cuidada muitas vezes por pais sem informação, força nem vontade de exercer a mais básica autoridade, sem a qual a família se desintegra e os jovens são abandonados à própria sorte num mundo nem sempre bondoso e acolhedor. Quem são, quem podem ser, os ídolos desses jovens, e que possibilidades lhes oferecemos? Então, refugiam-se na tribo, com atitudes tribais: o piercing, a tatuagem, a dança ao som de música tribal, na qual se sobrepõe a batida dos tantãs. Negativa? Censurável? Necessária para muitos, a tribo é onde se sentem acolhidos, abrigados, aceitos.

Escola e família ou se declaram incapazes, ou estão assustadas, ou não se interessam mais como deveriam. Autoridades, homens públicos, supostos líderes, muitos deles a gente nem receberia em casa. O que resta? A solidão, a coragem, a audácia, o fervor, tirados do próprio desejo de sobrevivência e do otimismo que sobrar. Quero deixar claro que nem todos estão paralisados, pois muitas famílias saudáveis criam em casa um ambiente de confiança e afeto, de alegria. Muitas escolas conseguem impor a disciplina essencial para que qualquer organização ou procedimento funcione, e nem todos os políticos e governantes são corruptos. Mas quero também declarar que aqueles que o são já bastam para tirar o fervor e matar o otimismo de qualquer um.

Assim, não acho que todos os jovens sejam arrogantes, todas as crianças mal-educadas, todas as famílias disfuncionais. Um pouco da doce onipotência da juventude faz parte, pois os jovens precisam romper laços, transformar vínculos (não cuspir em cima deles) para se tornar adultos lançados a uma vida muito difícil, na qual reinam a competitividade, os modelos negativos, os problemas de mercado de trabalho, as universidades decadentes e uma sensação de bandalheira geral.

Tenho sete netos e netas. A idade deles vai de 6 a 21 anos. Todos são motivo de alegria e esperança, todos compensam, com seu jeito particular de ser, qualquer dedicação, esforço, parceria e amor da família. Não tenho nenhuma visão negativa da juventude, muito menos da infância. Acho, sim, que nós, os adultos, somos seus grandes devedores, pelo mundo que lhes estamos legando. Então, quando falo em dificuldades ou mazelas da juventude, é de nós que estou, melancolicamente, falando.

 



Escrito por Leila às 16h32
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