Como espírita que sou, entendo a morte (e ainda tento aceitá-la muitas vezes), como o caminho do descanso merecido, após os acertos de contas todos durante o tempo em que se vive. Lendo este artigo (abaixo), acalmei por alguns segundos o meu pavor da hora em que tiver que me confrontar com a perda de meus pais. Ao mesmo tempo em que penso: como sei que eles irão desencarnar antes de mim? Enfim... duros questionamentos, pensamentos sofridos sobre isso, a caminho dos meus 50 anos. Um quarto de século vivido imprime no corpo e na alma, mudanças radicais. As boas, são infinitas e as desfruto com profunda alegria; as ruins, não tem volta. “É a vida e é bonita e é bonita” !!! Artigo publicado na Revista Veja de 9 set 09 O tabu da morte"Perder o ser amado não significa deixar de tê-lo ao nosso lado. Graças à memória, ele pode permanecer conosco. Fazer o luto é entender isso. Implica tempo e um trabalho subjetivo que leva à consolação"Betty Millan psicanalista e escritora |
O amor e a morte são os dois grandes temas da vida. Sobre o primeiro, recebo muitos e-mails endereçados à minha coluna em VEJA.com. Sobre o segundo, raramente alguém me envia correspondência. Resolvi escrever a respeito da morte porque ela é inelutável – mais dia, menos dia, todos nos confrontamos com o fim. Entre nós, ocidentais, o tema da morte é um tabu. Erguemos um muro entre os mortos e os vivos, como se assim pudéssemos afastar-nos dela. A palavra de ordem é não falar disso. À diferença de nós, os povos primitivos cultuavam os ancestrais não só para entrar em contato com o morto, no intuito de reverenciá-lo, como para se fazer ajudar por ele. O morto era integrado ao mundo dos vivos, que se separavam dele sem perdê-lo. Na falta de um culto dos ancestrais, o recurso que nós temos para superar o drama da morte é a rememoração. Perder o ser amado não significa deixar de tê-lo ao nosso lado. Graças à memória, ele pode permanecer conosco. Fazer o luto é entender isso. Implica tempo e um trabalho subjetivo que leva à consolação. O chamado "trabalho de luto", no linguajar dos psicanalistas. A morte tem de ser desdramatizada para que nós possamos sobreviver a ela, e não desperdiçar o tempo que nos resta. Já no século XVI, o pensador francês Montaigne, que refletiu sobre praticamente todos os temas de interesse, diz em seus Ensaios que é preciso não estranhar a morte, incitando o leitor a se acostumar com ela porque, "como não sabemos onde ela nos espera, é melhor esperá-la em todo lugar". Para Montaigne, essa é a condição da liberdade. Acostumar-se com a ideia da morte não significa se preocupar com ela. Nada é pior do que viver angustiado diante da ideia de não poder conservar o ser amado, e conservar-se vivo, até o final dos tempos. Quem vive assim torna-se infeliz antes da hora. Preocupar-se com o futuro significa perder o presente, deixar de gozar a existência. Temer a perda é o mesmo que perder. Carlito Maia, que foi, sobretudo, um filósofo popular brasileiro, dizia que de nada adianta preocupar-se com um problema. Temos de nos ocupar dele e ponto. Porque ocupar-se é uma forma de superar o problema – e viver. Preocupar-se, ao contrário, é uma forma de se enterrar em vida – e morrer. Sabedor disso, ele era tão leve quanto solidário. Valia-se da sua posição prestigiosa na Rede Globo para exercer uma espécie de flower power – celebrava, por exemplo, os eventos culturais de São Paulo, enviando aos amigos flores com bilhetes inesquecíveis. Não está mais vivo, porém, graças ao seu espírito, continua entre nós. O escritor vive para escrever; Carlito Maia viveu para merecer a palavra "saudoso". É bom tê-lo ao lado. P.S - Não conheci Carlito Maia, mas recebi inúmeras correspondências dele pelos Correios, nos tempos sem computador. Ele me desejava bom show, boa viagem, bom dia, e me mandava artigos fantásticos, com que me deleitei muitas horas da minha vida. Foi um ser humano e um escritor singular, inesquecível. Um beijo. Leila
Escrito por Leila às 17h17
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Entrevista interessante!
Publicada nas páginas amarelas da Revista VEJA de 16 set 09O negócio é ser verdeA consultora francesa, que assessora grandes companhias em assuntos ambientais, diz que é inevitável que as empresas adaptem seus modelos de negócio à sustentabilidade | "Plantar árvores não é o suficiente para uma companhia convencer o consumidor de que protege o ambiente. É preciso fazer mais" |
A especialidade da consultora francesa Élisabeth Laville, de 43 anos, é ajudar empresas a implantar políticas de sustentabilidade ambiental em suas atividades. Para ela, as atitudes sustentáveis deixaram de ser uma escolha das companhias para se tornar pilares de sua sobrevivência e um sinal de viço das economias. Hoje, defende ela, antes de comprar qualquer artigo, o consumidor tem o direito de saber as condições ambientais em que ele foi produzido. Élisabeth é autora do livro A Empresa Verde (Editora Õte), que está na terceira edição na França e acaba de ser lançado no Brasil. Ela cita uma série de exemplos que demonstram como as atitudes sustentáveis estão sendo incorporadas à rotina das empresas e desfaz o mito de que a sustentabilidade inviabiliza os lucros. De passagem por São Paulo, Élisabeth deu a seguinte entrevista a VEJA. O que a senhora acha de ações como a dos supermercados brasileiros que deixaram de comprar carne e soja produzidas em áreas devastadas ilegalmente na Amazônia? Acho que qualquer um que possua alguma influência nesse sentido deve usá-la, pois a responsabilidade nesse terreno é de todos. Se o consumidor sabe que comer muita carne vermelha não é bom para a saúde, como dizem os estudos de cardiologia há duas décadas, e que sua produção tem impacto nas mudanças climáticas, é sua responsabilidade comer menos carne. A carne responde por 20% das emissões de dióxido de carbono (CO2) no mundo. A partir do momento em que recebo essas informações, fazer algo é minha responsabilidade como consumidora. O mesmo vale para aqueles que comercializam os produtos no ponto de venda. Até porque eles sabem melhor que o consumidor final a procedência dos artigos e as condições em que são produzidos. Empresas cuja atividade é necessariamente poluente, como as que extraem minérios ou petróleo, conseguem compensar os danos ao meio ambiente com investimentos em projetos sociais ou ambientais? Esse é um primeiro passo. A solução é criar modelos de negócio sustentáveis para substituir os antigos. A companhia petrolífera BP anunciou que em trinta anos deixará de ser uma produtora de petróleo para se tornar uma produtora de energia, com 50% dela proveniente de fontes renováveis. Se isso de fato acontecer, será um exemplo de troca de um modelo não sustentável por um sustentável. Um caso curioso é o das empresas de coleta de lixo. Elas vendem a ideia de que são sustentáveis porque tratam o lixo produzido pelos outros. No entanto, seus lucros crescem com o aumento da produção de lixo, o que não é nada sustentável. O que essas empresas precisam fazer é criar soluções para faturar com a redução do lixo produzido. Para isso, elas poderiam desenvolver tecnologias que ajudassem as indústrias a desperdiçar menos. Ou trabalhar em parceria com os municípios, de maneira a transformar o lixo em produtos. São Francisco, nos Estados Unidos, transforma lixo orgânico em adubo usado nos vinhedos do Vale do Napa. É ético tentar vender produtos apelando para o fato de que a empresa usa uma parte de seu lucro para plantar árvores? Existem pesquisas de mercado mostrando que esse tipo de propaganda não convence o consumidor de que a empresa está realmente comprometida com a sustentabilidade. Plantar árvores é apenas o primeiro estágio para que uma empresa se torne sustentável. Mas talvez seja o sinal de que está disposta a promover outras mudanças. Em sua opinião, o barulho feito por entidades como o Greenpeace pode mudar a cultura das empresas que elas criticam? O Greenpeace tem o mérito de, muitas vezes, saber mais sobre determinadas questões de uma empresa do que ela própria. Eles são assessorados por bons especialistas e produzem relatórios de qualidade. O Greenpeace fez uma campanha contra os lenços de papel produzidos pela Kimberly-Clark, que cortava árvores da floresta para fabricá-los. Essa empresa anunciou mudanças, como o uso de madeira certificada e papel reciclado. O Greenpeace acabou estabelecendo uma parceria. Empresas como Wal-Mart e McDonald’s, que eram vistas como inimigas do meio ambiente, não são mais tratadas como vilãs. Mudou a forma de essas companhias trabalharem ou mudou a posição dos ecologistas? Houve mudanças nos dois lados. Ambas estão mais abertas ao diálogo. Recentemente, o Green-peace procurou minha empresa porque estava produzindo um guia sobre sustentabilidade e queria citar ações positivas de um cliente meu. A princípio, o cliente nem sequer queria se reunir com os representantes da entidade, porque achava que ela tinha planos de prejudicá-lo. Mas não era nada disso. Eles apenas buscavam informações positivas sobre a empresa. Colaborações entre empresas e ONGs são mais frequentes hoje do que quando a senhora começou a trabalhar na área ambiental, em 1993? Sim. Muitas empresas já percebem que, para se tornar mais sustentáveis, precisam de colaboração. Há algum tempo, a Unilever enfrentou um problema de ordem prática. O bacalhau congelado que ela vendia estava acabando no mar. A solução foi buscar uma parceria com a organização ambientalista World Wildlife Fund (WWF), que a ajudou a desenvolver um projeto de pesca sustentável. Ao colaborarem, todos ganham. Depois dos carros, os aviões são os vilões da vez entre os ambientalistas, pela poluição que seus motores produzem. É possível, num mundo globalizado, pedir que as pessoas viajem menos de avião? Sim. O avanço da tecnologia tende a facilitar esse comportamento. Muitas viagens podem ser evitadas substituindo-se os encontros de negócios por reuniões virtuais via computador, por exemplo. Por enquanto, o mais importante é fazer com que as pessoas tenham conhecimento de que suas viagens têm impacto sobre o meio ambiente, já que os aviões emitem grande quantidade de CO2. Para vir ao Brasil, paguei uma taxa extra, de 120 euros, que será usada para compensar o impacto ambiental resultante da viagem. Não só as passagens de avião, mas também outros produtos, terão de incorporar no seu preço uma compensação pelo impacto ambiental que provocam. Como combater a poluição causada pelos carros? O ideal é que se use o carro o mínimo possível. É claro que, quanto maior a mobilização da sociedade e do governo para facilitar que o o carro fique na garagem, melhor. Isso inclui investimentos em transporte público, mas também ações sociais, como a Vélib, em Paris. Milhares de bicicletas foram espalhadas em pontos específicos da cidade e podem ser utilizadas pela população a um preço muito baixo. Essa ação visa a estimular o cidadão a trocar o carro pela bicicleta em trajetos curtos, sem precisar comprá-la, o que é muito ecológico. É bom para o ambiente e para a saúde. Eu mesma, que moro em Paris, uso esse sistema e evito, sempre que possível, andar de carro e de avião. Que outras atitudes sustentáveis a senhora incorporou à sua rotina? Depois que tive minha filha, hoje com 4 anos, fiquei radical quanto a determinadas questões. Ela entrou para a escola recentemente, e constatei que os alimentos servidos lá eram ricos em gorduras e carboidratos. Disseram-me que seria impraticável adotar um novo cardápio sem que outras instituições aderissem a ele. Procurei essas escolas e consegui que aderissem à mudança na alimentação das crianças. Ou seja, mesmo atitudes simples podem ter impacto para as gerações futuras. Não consigo entender por que as pessoas não se preocupam com o mundo que deixarão para seus descendentes. Na Europa, onde uma parte da população costuma esquiar, os adultos não pensam que, ao ter atitudes antiecológicas, privarão seus filhos ou netos do esporte. Dez por cento das estações de esqui dos Alpes estão sob risco de fechar, pois não há mais neve como antes. Outro hábito que incorporei foi comprar produtos de limpeza e alimentos orgânicos. Essas atitudes podem ter enorme impacto na saúde de todos. Os alimentos orgânicos costumam ser bem mais caros. Não é inviável popularizá-los? Nos últimos trinta anos, o dinheiro que os franceses gastam com comida caiu pela metade. Os alimentos ficaram mais baratos, mas não necessariamente mais saudáveis. No mesmo período, os gastos com saúde dobraram. A princípio, pode parecer ótimo sinal o fato de a comida ficar mais barata, mas não é bem assim. O baixo preço significa que ali não estão incluídos os gastos sociais, ecológicos nem os de futuros problemas de saúde decorrentes do uso de agrotóxicos, por exemplo. Um estudo feito pela WWF com mulheres de três gerações mostrou que a concentração de substâncias químicas no corpo das crianças era maior do que no das jovens. Estas, por sua vez, tinham no organismo concentração maior do que no das mais velhas. Ou seja: de uma geração para outra, houve um aumento de substâncias tóxicas. O contato com agentes poluentes cresceu tanto no ambiente externo como dentro de casa. É possível tornar os alimentos orgânicos mais baratos? Acho que é uma questão de tempo até que a exceção se torne regra. Se todos começarem a exigir orgânicos no mercado, eles vão baratear. Foi o que aconteceu com outros produtos, como o ar-condicionado dos carros, que antes era usado por poucas pessoas, e o telefone celular, que custava caríssimo e hoje pode sair de graça. É uma questão também de escolha do comprador. Na França, há um sistema interessante, que consiste em pagar uma quantia mensal a uma rede de produtores, e semanalmente eles entregam na sua casa uma cesta com os melhores alimentos disponíveis. Isso facilita o processo produtivo sustentável, pois se recebe o que foi produzido naquela estação, por produtores locais, sem gastar combustível para importar produtos de outros países. Em sua viagem pelo Brasil, que iniciativas ecológicas a surpreenderam positivamente? Passei alguns dias em um vilarejo perto de Fortaleza chamado Prainha do Canto Verde, que se mantém de maneira sustentável, vive da pesca e evita publicidade para não atrair turistas demais. A comunidade é organizada, e os jovens têm plena noção de que a preservação do local é o que vai garantir seu sustento. Perguntei a esses jovens se gostariam de ir para os centros urbanos. Eles não querem, pois sabem que, numa grande cidade, fatalmente acabariam em favelas. Também soube de outros casos interessantes de iniciativas sustentáveis, como o dos produtores de café que plantam árvores e cultivam café sob elas, protegendo a floresta. O que a surpreendeu negativamente no país? As cidades, que não têm planejamento. Elas vão se espalhando. São Paulo, por exemplo, é como Los Angeles, que força o cidadão a usar o carro e mantém o padrão viver-trabalhar-comprar. Um amigo meu, que mora há anos em Los Angeles, ficou sem carro pela primeira vez pouco tempo atrás e simplesmente se sentiu perdido, sem poder se deslocar direito Como a senhora vê o dilema entre preservar a Floresta Amazônica e desmatar parte dela para produzir riquezas? A questão difícil sobre a Amazônia é que, preservada, ela oferece um benefício gratuito, mas não lucrativo. Talvez a solução seja encontrar uma forma de calcular quanto aquele ecossistema preservado representa, estabelecer um valor para que ele seja preservado, tornando-o viável economicamente também para as pessoas que estão deixando de ganhar dinheiro ao manter as árvores. O ecossistema preservado pode ser trocado por créditos de carbono. por Paula Neiva | Revista Veja
Escrito por Leila às 16h41
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M A R I N A DA S I L V A
Sofri tanto quando perdemos Gabeira para a prefeitura do Rio, que agora, volto a ter esperança de que podemos, com Marina da silva, lembrar que nem tudo está perdido e, que, mesmo não conseguindo elegê-la para presidir o Brasil, teremos sua voz e inteligência, iluminando a vida da gente e o debate político nesta república insana. Viva Marina da Silva!Marina Imaculada (Entrevista publicada nas páginas amarelas da Revista Veja de 2 set 09)Politicamente correta, com biografia sem nódoas e uma doçura sem par, a senadora verde diz por que deixou o PT e o que defenderá na corrida à Presidência da República em 2010
 | "Também sou negra, mas seria muito pretensioso da minha parte me apresentar como similar ao Obama" |
A senadora Marina Silva, do Acre, causou um abalo amazônico ao Partido dos Trabalhadores. Depois de trinta anos de militância aguerrida, abandonou a legenda e marchou para o Partido Verde, seduzida por um convite para ser a candidata da agremiação à Presidência da República em 2010. Para o PT, o prejuízo foi duplo: não só perdeu um de seus poucos integrantes imaculadamente éticos, como ganhou uma adversária eleitoral de peso. Os petistas temem, e com razão, que a candidatura de Marina tire muitos votos da sua candidata ao Planalto, a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. Na semana passada, Marina, de 51 anos, casada, quatro filhos, explicou a VEJA as razões que a levaram a deixar o PT – e opinou sobre temas como aborto, legalização da maconha e criacionismo. A senhora será candidata a presidente pelo Partido Verde? Ainda não é hora de assumir candidatura. Há uma grande possibilidade de que isso aconteça, mas só anunciarei minha decisão em 2010. Se sua candidatura sair, como parece provável, que perfil de eleitor a senhora pretende buscar? Os jovens. Eles estão começando a reencontrar as utopias. Estão vendo que é possível se mobilizar a favor do Brasil, da sustentabilidade e do planeta. Minha geração ajudou a redemocratizar o país porque tínhamos mantenedores de utopia. Gente como Chico Mendes, Florestan Fernandes, Paulo Freire, Luiz Inácio Lula da Silva, Fernando Henrique Cardoso, que sustentava nossos sonhos e servia de referência. Agora, aos 51 anos, quero fazer o que eles fizeram por mim. Quero ser mantenedora de utopias e mobilizar as pessoas Sua saída abalou o PT. Além da possibilidade de disputar o Planalto, o que mais a moveu? O PT teve uma visão progressista nos seus primeiros anos de vida, mas não fez a transição para os temas do século XXI. Isso me incomodava. O desafio dos nossos dias é dar resposta às crises ambiental e econômica, integrando duas questões fundamentais: estimular a criação de empregos e fomentar o desenvolvimento sem destruir o planeta. O crescimento econômico não pode acarretar mais efeitos negativos que positivos. Infelizmente, o PT não percebe isso. Cansei de tentar convencer o partido de que a questão do desenvolvimento sustentável é estratégica – como a sociedade, aliás, já sabe. Hoje, as pessoas podem eleger muito mais do que o presidente, o senador e o deputado. Elas podem optar por comprar madeira certificada ou carne e cereais produzidos em áreas que respeitam as reservas legais. A sociedade passou a fazer escolhas no seu dia a dia também baseada em valores éticos. A crise moral que se abateu sobre o PT durante o governo Lula pesou na decisão? Os erros cometidos pelo PT foram graves, mas estão sendo corrigidos e investigados. Quando da criação do PT, eu idealizava uma agremiação perfeita. Hoje, sei que isso não existe. Minha decisão não foi motivada pelos tropeços morais do partido, mesmo porque eles foram cometidos por uma minoria. Saí do PT, repito, por falta de atenção ao tema da sustentabilidade. Ou seja, apesar de mudar de sigla, a senhora não rompeu com o petismo? De jeito nenhum. Tenho um sentimento que mistura gratidão e perda em relação ao PT. Sair do partido foi, para mim, um processo muito doloroso. Perdi quase 3 quilos. Foi difícil explicar até para meus filhos. No álbum de fotografias, cada um deles está sempre com uma estrelinha do partido. É como se eu tivesse dividido uma casa por muito tempo com um grupo de pessoas que me deram muitas alegrias e alguns constrangimentos. Mudei de casa, mas continuo na mesma rua, na mesma vizinhança. No período em que comandou o Ministério do Meio Ambiente, a senhora acumulou desavenças com a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. Como será enfrentá-la em sua eventual campanha à Presidência? Não vou me colocar numa posição de vítima em relação à ministra Dilma. Quando eu era ministra e tínhamos divergências, era o presidente Lula quem arbitrava a solução. Não é por ter divergências com Dilma que vou transformá-la em vilã. Acredito que o Brasil pode fazer obras de infraestrutura com base no critério de sustentabilidade. Temos visões diferentes, mas não vou fazer o discurso fácil da demonização de quem quer que seja. Um de seus maiores embates com a ministra Dilma foi causado pelas pressões da Casa Civil para licenciar as hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio, no Rio Madeira. A senhora é contra a construção de usinas? No Brasil, quando a gente levanta algum "porém", já dizem que somos contra. Nunca me opus a nenhuma hidrelétrica. O que aconteceu naquele caso foi que eu disse que, antes de construir uma usina enorme no meio do rio, era preciso resolver o problema do mercúrio, de sedimentos, dos bagres, das populações locais e da malária. E eu tinha razão. Como as pessoas traduziram a minha posição? Dizendo que eu era contra hidrelétricas. Isso é falso. Se a senhora for eleita presidente, proibirá o cultivo de transgênicos? Eis outra falácia: dizer que sou contra os transgênicos. Nunca fui. Sou a favor, isso sim, de um regime de coexistência, em que seria possível ter transgênicos e não transgênicos. Mas agora esse debate está prejudicado, porque a legislação aprovada é tão permissiva que não será mais possível o modelo de coexistência. Já há uma contaminação irreversível das lavouras de milho, algodão e soja. O que a senhora mudaria no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC)? Eu não teria essa visão de só acelerar o crescimento. Buscaria o desenvolvimento com sustentabilidade, para que isso pudesse ser traduzido em qualidade de vida para as pessoas. Obviamente, é necessário que o país tenha infraestrutura adequada. Mas é preciso evitar os riscos e problemas que os empreendimentos podem trazer, sobretudo na questão ambiental. Na economia, faria mudanças? Não vou me colocar no lugar dos economistas. Prefiro ficar no lugar de política. Em linhas gerais, acho que o estado não deve se colocar como uma força que suplanta a capacidade criativa do mercado. Nem o estado deve ser onipresente, nem o mercado deve ser deificado. Também gosto da ideia do Banco Central com autonomia, como está, mas acho que estão certos os que defendem juros mais baixos. No seu novo partido, o PV, há uma corrente que defende a descriminalização da maconha. Como a senhora se posiciona a respeito desse assunto? Não sou favorável. Existem muitos argumentos em favor da descriminalização. Eles são defendidos por pessoas sérias e devem ser respeitados. Mas questões como essa não podem ser decididas pelo Executivo, e sim pelo Legislativo, que representa a sociedade. A minha posição não será um problema, porque o PV pretende aprovar na próxima convenção uma cláusula de consciência, para que haja divergências de opinião dentro do partido. Os Estados Unidos elegeram o primeiro presidente negro de sua história, Barack Obama. Ele é fonte de inspiração? Eu também sou negra, mas seria muito pretensioso da minha parte me colocar como similar ao Obama. Ele é uma inspiração para todas as pessoas que ousam sonhar. A questão racial teve um peso importante na eleição americana. Mas os Estados Unidos têm uma realidade diferente da do Brasil. Eu nunca fui vítima de preconceito racial aqui. A senhora poderia se apresentar como uma candidata negra na campanha presidencial? Não. É legítimo que as pessoas decidam votar em alguém por se identificar com alguma de suas características, como o fato de ser mulher, negra e de origem humilde. Mas seria oportunismo explorar isso numa campanha. O Brasil tem uma vasta diversidade étnica e deve conviver com as suas diferentes realidades. Caetano Veloso (cantor baiano) já disse que "Narciso acha feio o que não é espelho". Nós temos de aprender a nos relacionar com as diferenças, e não estimular a divisão. A história engraçada é que, durante as prévias do Partido Democrata americano, quando a Hillary Clinton disputava a vaga com Obama, um amigo meu brincou comigo dizendo que os Estados Unidos tinham de escolher entre uma mulher e um negro, e, se eu fosse candidata no Brasil, não teríamos esse problema, porque sou mulher e negra. A senhora é a favor da política de cotas raciais para o acesso às universidades? Há quem ache que as cotas levam à segregação, mas eu sou a favor de que se mantenha essa política por um período determinado. Acho que há, sim, um resgate a ser feito de negros e índios, uma espécie de discriminação positiva. Mas a senhora entrou numa universidade pública sem precisar de cotas, embora seja negra, de origem humilde e alfabetizada pelo Mobral. Sou uma exceção. Tenho sete irmãos que não chegaram lá. Aos 16 anos, a senhora deixou o seringal e foi para a cidade, a fim de se tornar freira. Como uma católica tão fervorosa trocou a Igreja pela Assembleia de Deus? Fui católica praticante por 37 anos, um aspecto fundamental para a construção do meu senso de ética. Meu ingresso na Assembleia de Deus foi fruto de uma experiência de fé, que não se deu pela força ou pela violência, mas pelo toque do Espírito. Para quem não tem fé, não há como compreender. Esse meu processo interior aconteceu em 1997, quando já fazia um ano e oito meses que eu não me levantava da cama, com diagnóstico de contaminação por metais pesados. Hoje, estou bem. A senhora é mesmo partidária do criacionismo, a visão religiosa segundo a qual Deus criou o mundo tal como ele é hoje, em oposição ao evolucionismo? Eu creio que Deus criou todas as coisas como elas são, mas isso não significa que descreia da ciência. Não é necessário contrapor a ciência à religião. Há médicos, pesquisadores e cientistas que, apesar de todo o conhecimento científico, creem em Deus. O criacionismo deveria ser ensinado nas escolas? Uma vez, fiz uma palestra em uma escola adventista e me perguntaram sobre essa questão. Respondi que, desde que ensinem também o evolucionismo, não vejo problema, porque os jovens têm a oportunidade de fazer suas escolhas. Ou seja, não me oponho. Mas jamais defendi a ideia de que o criacionismo seja matéria obrigatória nas escolas, nem pretendo defender isso. Sou professora e uma pessoa que tem fé. Como 90% dos brasileiros, acredito que Deus criou o mundo. Só isso. A senhora é contra todo tipo de aborto, mesmo os previstos em lei, como em casos de estupro? Não julgo quem o faz. Quando uma mulher recorre ao aborto, está em um momento de dor, sofrimento e desamparo. Mas eu, pessoalmente, não defendo o aborto, defendo a vida. É uma questão de fé. Tenho a clareza, porém, de que o estado deve cumprir as leis que existem. Acho apenas que qualquer mudança nessa legislação, por envolver questões éticas e morais, deveria ser objeto de um plebiscito. Seu histórico médico inclui doenças muito sérias, como cinco malárias, três hepatites e uma leishmaniose. A senhora acredita que tem condições físicas de enfrentar uma campanha presidencial? Ainda não sou candidata, mas, se for, encontrarei forças no mesmo lugar onde busquei nas quatro vezes em que cheguei a ser desenganada pelos médicos: na fé e na ciência. por Sandra Brasil | Revista Veja
Escrito por Leila às 13h03
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