Conversa afiada


Cont. entrevista NÉLIDA PIÑON

Qual foi a mais marcante? A dos 10 anos (morou dos 10 aos 12 anos na Galícia), porque abriu a porta dos meus grandes mitos. Eu me tornei uma grande mestiça cultural, uma mulher múltipla. Convivia com os mitos, os deuses, com as mortes, convivi com um povo muito antigo. Eu me descobri uma mulher arcaica, uma menina arcaica. Até hoje sei que sou arcaica. Sem ser arcaica, não posso ser moderna. Este livro é um balanço, a história de uma formação. De uma brasileira, de família galega, portanto de origem de imigrante e que descobre o mistério da sua gênese, sobretudo os mistérios da sua gênese cultural, da gênese dos sentidos, da sensibilidade, das decisões estéticas.

É uma história de vida marcada por duas Carmens... A Carmen Piñon e a Carmen Balcells, duas mulheres muito importantes na minha vida. É engraçado isso. Aliás, Carmen Balcells me telefonou ontem (semana passada) e nós conversamos muito. O livro já está sendo traduzido para o espanhol. Carmen foi minha agente, apostou em mim. Foi Vargas Llosa quem me levou para ela. Carmen depois se tornou uma grande amiga da minha mãe, diz que foi uma das pessoas mais importantes da vida dela.

Santiago de Compostela recebeu sua visita bem antes de Paulo Coelho... Não conto no livro, mas fiz o caminho a meu jeito, de carro, levou 21 dias (risos). A pé eu não quis fazer. Conheço muito bem o caminho, é extraordinário. Um dia penso escrever sobre ele, do meu jeito. Ninguém diz, mas era um caminho do pecado. Você podia pecar muito para chegar no fim e ser perdoado. É como Santo Agostinho: “Fazei-me puro, senhor, mas não já”. Você precisa pecar muito, precisa conhecer a paixão da carne, se deixar levar ou dominar pelas paixões. Era um caminho onde havia muito pecado, grande prostituição. Muitos assassinatos, roubos, era perigosíssimo. Levava-se às vezes uns dois, três anos. Ia-se parando, você se tornava necessariamente um “vagabonde”, no sentido francês. Por que a guerra era tão querida pelos povos também? Porque se tornavam aventureiros. Saíam de um lugarzinho inóspito, de um casebre imundo, pobre, e ganhavam o sentido da aventura. A pessoa $tornava um aventureiro, que é o melhor estado do mundo. O melhor do mundo não é ser escritor, é ser aventureiro.

Em determinado trecho, observa que, apesar do Brasil, persistiu na literatura. Tem algum ressentimento? Ressentimento não, mas uma dor, que se deve ter. Não é possível que um escritor brasileiro aplauda a indiferença cultural do Brasil. Só um insensato. Como não sou insensata, nem parei de pensar, reconheço que o Brasil cobra um esforço acima das necessidades da literatura. Persistir na literatura é um milagre. Você depende da bondade de tantos para continuar escrevendo, de amigos, da mãe, do pai, dos amores, e de todo mundo. Todos os dias alguém bate à sua porta convocando você a desistir. E você tem de abrir a porta com bom humor e dizer, “sinto muito, mas eu não vou desistir”. Fui tentada inúmeras vezes, e nunca quis desistir. O Brasil não tem uma grande bolsa de estudos para escritor. Nunca teve, agora tem umas coisinhas aí. Nunca teve uma bolsa que ajudasse você a conhecer o mundo, que permitisse que você escrevesse um romance de dois anos. Os EUA estão cheios de bolsas. Os grandes prêmios brasileiros eram inexistentes, a coisa melhorou muito de um tempo para cá. A sensação que você tinha é que era uma espécie em extinção. Sendo mulher, provar que existia era um esforço extraordinário. Ser uma mulher bem educada não é fácil. Uma mulher com uma certa cultura, não é fácil. Com independência moral muito grande, não é fácil. A minha história não tem proteções do poder. Essa independência me custou caro. Não sou mulher de grupos, sou mulher muito solta pelo mundo. Não tenho histórias de mendicância moral. Ser escritor foi muito difícil, isso, é claro, para fazer a literatura que eu queria. Porque tenho facilidade para fazer texto erótico como muita pouca gente, e podia explorar esse trajeto e ganhar dinheiro. Não é ressentimento, é realidade. Também não estou cobrando nada, ninguém me deve nada. Eu é que devo à literatura. O prazer e a alegria que a literatura me dá são extraordinários, então valeram todos os esforços.

 

 



Escrito por Leila às 18h42
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Cont. entrevista NÉLIDA PIÑON

O que descobriu escrevendo o livro? Esse livro tocou em aspectos muito sensíveis. Nunca pensei que a figura do meu pai (que morreu quando ela tinha 20 anos) fosse ganhar tanta relevância. De certo modo, eu o soterrara ao longo dos anos, para aceitar sua perda, que para mim foi uma grande dor. E para ajudar minha mãe. Nós duas ficamos sozinhas num mundo muito difícil. E eu querendo fazer uma carreira muito difícil. A literatura não era supostamente para mulheres, sobretudo para jovens. Aliás, até hoje. Há muito preconceito com a literatura produzida por mulher. Há menos consideração pela mulher escritora. A não ser aquelas que ganham proeminência determinada. A tendência é a da invisibilidade. A mulher não é tão legitimada e se lê menos o texto produzido por mulher.

Surpreendeu-se com a força da memória? A memória é um patrimônio que você tem , mas que não domina, é esquivo. Ela não depura, ela acolhe e acata, não tem uma estética. A memória não bate à sua porta para dizer: “viva bem, seja elegante, porque estou colhendo tudo para um livro que quero que seja escrito por você no futuro”. A memória não faz isso, ela é um registro totalizante.

Por que escrever suas memórias? Todos nós pensamos na morte, a morte é uma mentora. Ela vai nos dizendo: você vai morrer. Olha os objetos. Da minha mãe, do meu pai, os objetos da minha vida. Eu não tenho novidades na minha casa. É todo um repertório de memórias. Eu tinha uma curiosidade $pela minha formação. Venho pensando, ultimamente: como uma brasileira decidiu virar uma Simbad, e desandou a velejar pelo mundo? Sem muita proteção. Eu ia sozinha aos lugares. Nunca tinha os melhores lugares, porque estava iniciando. Mas sabia que era muito importante para a minha aprendizagem de vida. Isso me ajudou muito, desde menininha eu comecei a viajar. Fui induzida a acreditar que a imaginação precisava de subsídios. Não é verdade que a imaginação seja um regalo gratuito. Você tem uma imaginação que se esgota, se não a alimenta. Com essas viagens todas, fundamentais, as primeiras, eu fui entendendo que viajar era uma segunda natureza para mim. Já nas viagens mais profissionais, fui aprendendo, aprendendo, e acho que fui aprendendo tanto ao longo de $anos, que nem sempre eu pude imaginar que o que eu fazia não era comum.



Escrito por Leila às 18h40
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Cont. entrevista NÉLIDA PIÑON

Volta sempre à casa... Adoro a minha casinha. Sei que a tendência de um feminismo era a necessidade de a mulher dar as costas à casa, porque a casa foi uma senzala para ela, um serralho. Estou de acordo porque sou uma feminista histórica. Mas a grande mudança hoje é você voltar para a casa e fazer dela, para você e todos os demais, o seu paraíso, não a sua masmorra. Fazer dela a sua liberdade, onde você se exercita e, se for preciso, o lugar onde até afia a unhinha para sair mais corajosa para o mundo. (risos)

 

 

O momento de balanço tem relação com o novo livro? Pode ser. Sou uma mulher de hábitos diários. Penso o tempo todo. E adoro as banalidades, elas me lançam a reflexões mais profundas. Não me empobrecem. Acho perigoso o escritor que se afasta da trivialidade do cotidiano. Ele pode fazer uma grande exegese do cotidiano através dos mínimos detalhes. Às vezes, sei de um programa de TV que não me enriquece, mas preciso ver para descobrir como as pessoas se emocionam, o que desperta atenção no outro. Tenho de saber o que um copo de cerveja, em termos de liberdade e emancipação econômica, provoca num folião. Tanto que antigamente, eu falo isso no meu livro, as pessoas adoravam acumular garrafas de cerveja vazias, naqueles botecos. As pequenas exibições, ostentações, cenários do cotidiano me induzem a pensar em outras transcendências. Nesse sentido, sou mulher do cotidiano. $pessoas falam muito comigo na rua. Paro e converso, qualquer razão é pretexto. Me faz crescer. E gosto muito de dizer que sou uma escritora brasileira. Habituei-me, nessas viagens todas, desde muito jovem, a dizer, “sou uma escritora brasileira”. Uma vez fui apresentada a Jacqueline Kennedy pela Toni Morrison, nós somos muito amigas. “Esta é uma escritora brasileira”, disse a Toni Morrison. E Jackie Kennedy respondeu, muito educada: “Mas que prazer, é o primeiro escritor brasileiro que conheço”. “Certamente será o último”, eu respondi. “Você acha que os escritores brasileiros andam pelo mundo?” Ela riu, e nós batemos um papinho.



Escrito por Leila às 18h39
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O coração andarilho de NÉLIDA PIÑON

O Coração andarilho de Nélida Piñon

Sempre me detenho encantada diante de relatos, histórias de vida e obra de mulheres guerreiras, obstinadas, que se doam para seus ofícios. Nélida Piñon é uma dessas mulheres que admiro e para quem tenho sempre momentos de atenção deliciosamente saboreados. Esta conversa dela com Rachel Bertol no Suplemento Prosa & Verso do Jornal O Globo do dia 7 de março passado, me fez parar pra pensar diversas vezes, no decorrer do dia. Viva Nélida e sua obra vasta e bela!

 

A escritora Nélida Piñon lançou seu primeiro romance em 1961. Teve uma vida intensa, e sobretudo de intensa dedicação à literatura. Mais do que dedicação, uma vida de paixão à literatura, um dos temas que permeiam “Coração andarilho” (Record), seu mais recente livro e o primeiro de memórias. Na obra, a escritora, que nasceu no bairro carioca de Vila Isabel e é de família de origem galega, conta a história de sua formação. Mostra como, desde pequena, em sua vida, nunca houve outra opção além da literatura.  Nélida lê um trecho de sua nova obra.  

A senhora comentou que tem feito um balanço de sua vida: o que está descobrindo? 

Tenho observado como é difícil uma trajetória literária. Também me dou conta da intensa vida pessoal que sempre tive. De repente, acho que é preciso criar certos decálogos, quase um códice milenar, sempre metafórico, para você próprio. Porque você é uma metáfora para si próprio, você não tem uma explicação completa da sua pessoa e da realidade. Por isso, a arte é uma necessidade, um apoio, um amparo do ser humano. Não é só deleite, é registro da nossa complexidade. Diante de tudo isso tenho o hábito de pensar e adoro pensar, me dá um prazer imenso. É como se eu estivesse reduzindo o meu índice de medo, da morte, da vida, o pior medo é temer o medo. Nesse sentido sou muito atrevida. Tenho sido atrevida na minha vida, sem ser panfletária. Nunca quis exibir as minhas audácias. 

Execra a autopromoção, tão comum hoje em dia. 

Isso afeta a minha dignidade. Eu me lembro de que, durante anos, sempre disse: o que for difícil não importa, se eu estou decidida a me autossatisfazer, por exemplo, com a criação literária. Não importa a dificuldade de viver num país como o Brasil, com uma língua deslumbrante mas periférica, sem dúvida. Porque a literatura brasileira é periférica. Tive opções de poder criar em língua espanhola, quando jovem. Mas a língua portuguesa, para mim, foi uma escolha profunda. Não havia possibilidade de eu abandonar a geografia minha, que é a geografia do Brasil e a geografia da minha língua. Tem sido sempre uma opção do ofício, uma opção profunda da minha vida. Há uma tentativa, eu percebo, de me associarem muito ao mundo espanhol, que eu amo. Mas até hoje, e pouca gente sabe disso, eu não tenho passaporte da União Europeia. É como se eu só pudesse ter um único passaporte, aquele verdinho brasileiro.



Escrito por Leila às 18h38
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