Dona Ruth
O Brasil não conheceu Dona Ruth e assim não
sabe quem perdemos com a partida dela. Uma pena! Que ela descanse em paz e que
a sua lição de vida, nos sirva de exemplo. Até na partida ela nos
deixa uma reflexão: estamos aqui hoje, agora, mas em segundos podemos não estar
mais. Meu coração sofreu com a sua partida! Parabéns dona Ruth e
obrigada!
Escrito por Leila às 23h33
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BARAK OBAMA

"A maior mudança de todas, no entanto, será a própria presença de um negro na Casa Branca, os braços negros apoiados na mesa do Salão Oval, a mão negra estendida aos visitantes estrangeiros, o dedo negro ao alcance dos comandos do dispositivo nuclear, o rosto negro reproduzido nas fotos e vídeos ao redor do planeta. É uma mudança de causar assombro, e passível de produzir efeitos mundo afora".
(Trecho do Ensaio de Roberto Pompeu de Toledo - Revista Veja - 11 de junho de 2008)
Escrito por Leila às 21h31
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MÚSICA NAS ESCOLAS - Demorou!!!!
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Comissão da Câmara aprova projeto que inclui ensino de música na educação básica |
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| por Iolando Lourenço, da Agência Brasil |
A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados aprovou nessa quarta-feira, dia 25, projeto de lei do Senado que altera a Lei de Diretrizes Básicas da Educação. A proposta inclui a música como conteúdo obrigatório na grade curricular dentro do ensino das artes, mas não exclusivo, para a educação básica.
O projeto é de autoria da senadora Roseana Sarney (PMDB-MA) e já foi aprovado pelo Senado. A votação na CCJ foi em caráter conclusivo e, com isso, se não for apresentado recurso para votação em Plenário, o projeto segue à sanção presidencial.
Para o relator da matéria, deputado Leonardo Picciani (PMDB-RJ), a aprovação do projeto é um avanço e vai garantir aos estudantes mais oportunidade e uma melhor formação, além de estimular a descoberta de novos talentos para a música. “A inclusão da música no ensino tem função cultural e artística, além de ajudar no desenvolvimento dos estudantes.“
Segundo Picciani, a receptividade da proposta vai ser muito grande. “O ensino da música dentro de artes permite aumento da cultura e capacitação dos estudantes,. Além disso, música é alegria”, disse ele. Pelo projeto, as escolas têm até três anos letivos para se adaptar às novas regras.
O projeto também estabelece que a disciplina de música deverá ser ministrada por professores com formação especifica na área.
Escrito por Leila às 19h41
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MEU VOTO SERÁ PARA O GABEIRA!
Escrito por Leila às 17h15
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Estou louca para ir ver!
Wagner Moura faz o Hamlet da sua geração
Ator triunfa como o protagonista do texto-síntese do teatro em montagem antológica do diretor Aderbal Freire-Filho
SÉRGIO SALVIA COELHO CRÍTICO DA FOLHA
Wagner Moura lançou-se na empreitada iniciática de "fazer seu Hamlet" com a intenção que fosse apenas mais uma montagem. Falhou: é o Hamlet emblemático da sua geração. Espelho inesgotável, mas que reflete apenas o que se põe na sua frente, a obra-prima de Shakespeare, síntese do teatro, já teve o rosto compenetrado de Sérgio Cardoso, que assumia o papel de construir o moderno teatro brasileiro; e, em oposição, um Marcelo Drummond se estraçalhando como um camicase nos caóticos anos 90, na montagem do Oficina. Moura, Hamlet do milênio, tem pela frente um país que se reergue praticamente de ruínas, mas tendo aprendido importantes lições. Vestindo o personagem como uma armadura, consciente da batalha, Moura precisa primeiro exorcizar o fantasma da grandiloqüência com o humor adolescente que tanto o marcou. Não é pela melancolia, mas pelo deboche exasperado que ele rejeita a podridão de seu reino e ganha a platéia nos trocadilhos e na marcação frenética. Mas há método nessa loucura: quando é preciso, triunfa pela simplicidade, e inesquecíveis monólogos marcam sua entrada definitiva no mundo adulto. Com uma preciosa tradução dividida entre ele, Bárbara Harrington e o diretor Aderbal Freire-Filho, se faz compreender sem perder o frescor nem a beleza sonora. O "ser ou não ser" tem seu peso devido, ou seja, um devaneio entre parênteses, quando o mais importante está em suas considerações sobre o próprio teatro. Para isso, é preciso um diretor que ponha seu currículo inteiro em cena, como faz Freire-Filho. Não pode ser menos, com "Hamlet": tudo o que o diretor já fez soa como uma preparação para o que se vê aqui. No cenário, retoma com Fernando Mello da Costa a experiência do "Púcaro Búlgaro": coxias abertas, abarrotadas, com atores atentos, em contraste com o palco nu. Há o vídeo em cena, que esfriava "O Que Diz Molero", e que agora acompanha passo a passo o texto, desdobrando suas leituras com grande impacto visual.
Rei coletivo Em uma metalinguagem, o pai de Hamlet, rei destronado por um canastrão, é uma entidade coletiva, feita pelo elenco de apoio que se reveza na armadura: a verdadeira majestade é da trupe, não do indivíduo. Mas cada peça desse quebra-cabeças é precisamente ajustada. Tonico Pereira, com sua bonomia que remeteria mais a Polônio, faz um Cláudio extremamente simpático, e por isso perigoso. Humano em sua fraqueza, Pereira atinge a maturidade como ator encontrando a dor no centro do cômico. Georgiana Góes é uma adolescente que se estraçalha na dor, por sambas e frevos que parecem improvisados na hora, façanha de Rodrigo Amarante. Fábio Lago faz um Laertes transfigurado pelo ódio, que recobra a integridade no final. Já Gillray Coutinho aproveita tudo o que Polônio pode lhe oferecer, na sua técnica espantosa. Marcelo Flores e Cláudio Mendes, clowns meticulosos, sabem honrar seus solos, enquanto coveiros e atores. Carla Ribas tem grande dignidade como Gertrudes, mas fica um pouco deslocada quando o desvario triunfa. Caio Junqueira (Horácio) e Felipe Kouri completam um elenco no qual ninguém faz sombra a ninguém, e é a história que prevalece. Esse "Hamlet" é indispensável e antológico por sua essencialidade. Não busca ser original, mas eficiente, e faz um apelo contagiante pela própria grandeza do teatro. Na ratoeira de "Hamlet", o que fica preso é o coração da platéia, com os olhos abertos para se ver refletido nesse espelho infinito.
HAMLET Quando: sex. e sáb., às 20h; dom., às 18h; até 28/9 Onde: teatro Faap (r. Alagoas, 903, São Paulo, tel. 0/xx/11/3662-7233; classificação: 14 anos) Quanto: R$ 80 Avaliação: ótimo
Escrito por Leila às 17h13
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Dei boas risadas!!!
Depois de uma maratona de shows, viagens, ensaios, gravações, que já
vem acontecendo há alguns meses, retomo o normal da vida, com um domingo
sossegado, quieto, sozinha em casa. Nem que eu conte aqui o que vivi esta
semana, alguém teria noção da correria, do stress, do cansaço que
foi, fazer três shows em dois dias, em duas cidades diferentes, saindo
do Rio, indo direto pra Campinas e de lá, para Rio Branco, no Acre,
via Guarulhos (fechado durante hoooooooooooras, por falta de visibilidade,
muita neblina etc...). De São Paulo, fomos para duas escalas: Brasília e Porto
Velho (Rondônia) e só então, chegamos a Rio Branco, para um banho, um jantar
rápido e....palco direto, sound check, hotel, maquiagem e....palco de novo: show
sozinha ao piano. Ufa!!! Em Campinas, um show às 19h, e outro às 21:30h,
felizmente com Guinga e Eduardo Gudin como convidados especialíssimos, com quem
pude dividir as responsas, matando as saudades que sempre tenho, de tocar e
cantar com ambos, meus amados compositores e parceiros.
Tudo certo, missão cumprida...e a volta pra casa? Aeroporto de Brasília
lotado, esperando vôos que vinham de São Paulo, que, sem visibilidade, com
nevoeiro, tinha o aeroporto também fechado. Muitas horas de espera, vôo alterado
e lá vamos nós (eu e minha adorada equipe) para onde? Para Congonhas, em São
Paulo, desembarcar para pegar outro avião, para o Rio. Desembarque via
escada, ônibus, mais espera para embarcar de novo....enfim. O que restou de mim,
caiu no Rio de Janeiro, na tarde de sexta-feira, direto para uma banheira morna
e depois pra cama. Só levantei à noite, pra abraçar minha mãe, que viajava óntem
de volta para Belém. Loucura total! Indizível!
Aí hoje, domingo, sem minha Maricotinha ainda na "colônia de férias",
acordei, fui para a esteira, retomei meus exercícios e imaginei que pudesse
retomar meu trabalho de seleção de repertório para o show que faço no dia 13
agora, em São Paulo. Que nada! Cadê forças, cadê ânimo! Liguei para o
vídeo-clube e pedi três filmes brasileiros: o primeiro que vi, não gostei -
"Cinema, urubu e aspirinas". Vi todo, mas não me disse nada! Valeu pelo belo
trabalho do ator baiano João Miguel. O segundo filme que vi, foi o da capa
acima - "Saneamento básico", um show de leveza, de bom humor, num roteiro super
bem costurado e bem dirigido pelo Jorge Furtado. Fernanda Torres, Wagner Moura,
Paulo José, Camila Pitanga, Bruno Garcia, Lázaro Ramos, Tonico Pereira...se
divertem e batem um bolão. Parece uma reunião de amigos, que combinam de fazer o
que mais gostam na vida: atuar e se divertir juntos. Imperdível! Lavou minha
alma cansada e meu corpo, exausto, se fartou de rir, criando forças até pra
descer e escrever este post.
Boa semana a todos!
Escrito por Leila às 20h46
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Até que enfim, meu Deus!!!
Dia 29 de maio de 2008 - O Supremo Tribunal Federal (STF) libera (com atraso de três anos) as pesquisas com células-tronco de embriões humanos no Brasil! VIVA!!!!
"É toda a humanidade que sai perdendo, quando existe a tentativa de barrar avanços nas pesquisas científicas e tecnológicas" (Presidente da Corte).
Escrito por Leila às 12h04
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Entrevista imperdível
Reproduzo nos próximo posts, a
entrevista com o biólogo americano DAVID BALTIMORE. Há muito não leio nada tão
esclarecedor, lúcido, sensato e inteligente, sobre a realidade dura da cura da
Aids, as pesquisas com células-tronco e a vida, seu exercício diário, incansável
e apaixonado. Desmembrada em quatro posts, segue na íntegra a entrevista,
publicada na Revista Veja da semana passada.
Imperdível!
Escrito por Leila às 11h54
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Entrevista com David Baltimore 01
“O caminho é longo”
Entrevista com David Baltimore, publicada nas Páginas Amarelas da Revista Veja de 28 de maio de 2008 Dono de um Nobel há 33 anos, o biólogo diz que a cura da AIDS ainda está longe e conclama o Brasil a pesquisar células-tronco
O biólogo David Baltimore, 70 anos, é um daqueles pioneiros da pesquisa que a academia americana produz com certa freqüência. Por isso, quando vem a público, como faz nesta entrevista, para dizer que a cura da AIDS está longe, tão longe que nem é possível afirmar que será descoberta, os cientistas o escutam com atenção. O vírus HIV, causador da AIDS, foi descoberto há 25 anos, data marcada por um encontro científico realizado em Paris na semana passada. Apesar do insucesso das pesquisas, Baltimore não é um pessimista. Ao contrário. É um entusiasta da ciência que, mesmo tendo recebido o Nobel de Medicina com apenas 37 anos, ainda se mantém ativo no laboratório e fascinado com a profissão. "Eu me entusiasmo quando estou diante de um bom texto científico, de um bom trabalho, mesmo de uma boa conversa." Além de ser um defensor convicto das pesquisas com células-tronco, ele está seguro de que esse trabalho terá resultado mais profícuo que as pesquisas sobre a cura da AIDS e, mais cedo ou mais tarde, trará bons resultados para a humanidade. Nesta entrevista a VEJA, Baltimore fala do desafio que o HIV representa para a ciência e convida o Brasil a integrar o mutirão científico autorizando a pesquisa com células-tronco embrionárias, tema que o Supremo Tribunal Federal julgará nesta quinta-feira, em Brasília.
Veja - Por que os experimentos para encontrar uma vacina contra a AIDS até hoje não chegaram a lugar algum?
Baltimore - O caminho é dificílimo. É tão difícil que, neste momento, não sei afirmar quando teremos uma vacina, nem se a teremos um dia. Tenho esperança de que a comunidade científica terá sucesso nessa empreitada, mas até hoje não descobrimos um caminho que nos dê segurança de que chegaremos a uma vacina. É fundamental que os cientistas prossigam com as pesquisas, mas o vírus HIV, pela própria constituição, é praticamente insensível a anticorpos, e a maioria das vacinas trabalha com anticorpos. Talvez o caminho do combate à AIDS seja outro.
Veja - Qual é o outro caminho?
Baltimore - Estamos explorando uma linha de pesquisa com terapia genética. Nossos estudos pretendem descobrir se podemos modificar o sistema imunológico de uma pessoa. Se conseguirmos isso, podemos dotar o sistema imunológico da capacidade de fazer coisas que naturalmente ele não sabe fazer, como combater o HIV.
Veja - A terapia genética, se funcionar para combater o HIV, funcionaria também contra o câncer?
Baltimore - Sim, inclusive neste momento também estamos trabalhando com câncer nas nossas pesquisas.
Veja - Que linha de pesquisa está mais próxima do sucesso contra a AIDS: a terapia genética ou a vacina?
Baltimore - É difícil dizer. Há grandes desafios técnicos tanto numa linha quanto na outra. O fato é que o HIV está desafiando as habilidades da ciência atual.
Veja - O que o senhor sentiu quando viu um vírus HIV pela primeira vez?
Baltimore - Foi logo que descobriram a existência do vírus, no início dos anos 80. Quando me dei conta do que estava diante de mim, confesso que fiquei pasmo e assustado. Fiquei realmente assustado. Era a primeira vez que eu via um retrovírus. Ele era capaz de fazer coisas que nunca tínhamos visto antes. De causar imunodeficiência, ou seja, de tornar ineficiente nosso sistema imunológico. Foi impressionante e assustador.
Escrito por Leila às 11h50
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Entrevista com David Baltimore 02
Veja - A Justiça
brasileira vai decidir em breve se autoriza ou não a pesquisa com células-tronco
de embriões humanos descartados nas clínicas de fertilização. Quem é contra diz
que destruir um embrião equivale a um assassinato. O que o senhor
acha?
Baltimore - Não sei falar a respeito do
aspecto jurídico do assunto, mas do ponto de vista científico é uma discussão
sem sentido. Afinal, os embriões humanos foram descartados porque o casal já
teve o número de filhos que queria ou por qualquer outra razão. O fato é que os
embriões serão destruídos de qualquer modo. A questão é saber se serão
destruídos fazendo o bem a outras pessoas ou não. A meu ver, a resposta é
óbvia.
Veja - Sendo um país
onde a pesquisa científica ainda engatinha, o Brasil pode fazer alguma diferença
entrando para o clube das nações que realizam pesquisas com embriões?
Baltimore - Sem dúvida. Nunca estive no
Brasil, mas conheço cientistas brasileiros e tenho colegas que já lecionaram no
país. Por isso, posso dizer que, se o Brasil adotar uma linha de pesquisa de
alto nível, sua contribuição poderá ser enorme.
Veja - Cientistas que
defendem a preservação dos embriões nas clínicas de fertilização costumam dizer
que as pesquisas com células-tronco adultas são tão ou mais promissoras que as
com células-tronco embrionárias. É verdade?
Baltimore - Se eu fosse fazer uma aposta,
diria que as células-tronco adultas serão as primeiras a nos apresentar
resultados concretos, porque nós as conhecemos melhor, sabemos mais sobre seu
funcionamento. Nesse sentido, quando se trata de buscar resultados mais
imediatos, as células-tronco adultas são mais promissoras. Mas, a longo prazo,
as células-tronco embrionárias são muito mais promissoras, porque têm potencial
de transformação muito superior. Elas têm capacidade de evoluir para qualquer
tecido humano, mas ainda não as conhecemos tão bem. Produzir resultados a partir
das células-tronco de embriões, portanto, é algo que vai levar mais tempo. Mas a
tendência é que os resultados, quando surgirem, sejam mais importantes do que os
advindos das pesquisas com células-tronco
adultas.
Veja - O senhor
recomendaria que a pesquisa se concentrasse nas células-tronco adultas porque o
resultado tende a ser mais rápido?
Baltimore - Não é prudente paralisar nenhum
caminho promissor de pesquisa, mas acredito que devemos investir tempo, dinheiro
e energia nas pesquisas com células-tronco embrionárias. Como elas têm potencial
de evolução praticamente ilimitado, os experimentos aí vão produzir mais
conhecimento científico.
Veja - Há risco de as
pesquisas com células-tronco consumirem tempo, dinheiro e energia e resultarem
em nada?
Baltimore - As células-tronco são um
universo fascinante, certamente produzirão algum resultado, mas os problemas que
temos pela frente são grandes. O caminho é
longo.
Veja - Qual o grande
desafio?
Baltimore - Controlar a evolução das
células-tronco. Como elas têm imenso potencial de transformação, temos de
descobrir como fazê-las evoluir num sentido específico, no sentido que
desejamos. Por exemplo, se quisermos que se transformem em um nervo, em um
tecido cardíaco ou ósseo, teremos de ter garantias de que a evolução resultará
em um nervo, em um tecido cardíaco ou ósseo. Nosso desafio é saber como evitar
que cresçam de modo desordenado, porque isso pode resultar num câncer. Além de
descobrirmos como controlar essa evolução, temos de ser capazes de aplicar esse
controle de modo rotineiro e sistemático. Ainda não temos respostas para essas
questões.
Veja - Religião e
ciência são incompatíveis?
Baltimore - Entendo que ciência e religião
atuam em campos
distintos. Uma não responde às perguntas da outra. Por isso,
não vejo incompatibilidade.
Veja - O governo do
presidente George W. Bush, cujo fundamentalismo religioso barrou todo um campo
de pesquisas científicas, é um governo contra a ciência?
Baltimore - Não sei se é contra, mas
certamente esse governo tem sido notável na falta de interesse pela ciência. Até
o órgão de apoio à ciência, que costumava funcionar na Casa Branca, foi
transferido para outro lugar em Washington. Tudo se soma para mostrar que o
atual governo não se interessa pelo assunto.
Escrito por Leila às 11h49
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Entrevista com DAVID BALTIMORE - 03
Veja - O governo da Califórnia aprovou a criação de um fundo de 3 bilhões de dólares para financiar as pesquisas com células-tronco de embriões humanos, já que a Casa Branca decidiu fechar o cofre. Isso já produziu bons resultados?
Baltimore - Como o governo em Washington não apóia as pesquisas com embriões, os cientistas enfrentam constrangimentos legais porque não sabem se podem ou não apostar em certos caminhos de pesquisa. Isso acaba travando até mesmo a liberação de recursos financeiros. Quando deixei o comitê que escolhia os projetos científicos que o governo da Califórnia financiaria, havia pouco dinheiro liberado. Alguns laboratórios chegaram a fazer belos trabalhos apoiados pela política científica do estado, mas ainda é cedo para falar em bons resultados. Temos apenas uns dois anos de trabalho nisso. É pouco.
Veja - O desinteresse do governo americano ajudou a atrasar o progresso científico no mundo?
Baltimore - Acredito que sim. No caso das células-tronco, por exemplo, cujo financiamento com verba federal é limitado a apenas algumas linhas de pesquisa, a contribuição dos Estados Unidos poderia ter sido muito mais ampla. O mundo tem feito um trabalho fantástico nessa área, mas a ciência americana poderia ter ajudado. Por sorte, isso deve acabar com a eleição presidencial, sejam quais forem os candidatos e seja quem for o eleito. Tanto o republicano (o senador John McCain) quanto os democratas (os senadores Barack Obama e Hillary Clinton) têm mostrado isso. A atual política científica americana deve ser modificada imediatamente. Nos Estados Unidos, apesar dos investimentos privados, o governo é o grande incentivador da ciência. Como a Casa Branca historicamente cuida com carinho do assunto, o país conseguiu um desenvolvimento científico notável, mas nem sempre a ciência tem apoio da política.
Veja - A falta de apoio político retarda o avanço de certos experimentos ou chega a paralisá-los por completo?
Baltimore - Na década de 70, por exemplo, a fertilização in vitro era um assunto delicado, gerava polêmica, e os políticos preferiram tomar distância. No entanto, as pesquisas acabaram se desenvolvendo mesmo assim. Nesse caso, a falta de apoio governamental teve outra decorrência negativa nos Estados Unidos. A fertilização in vitro se desenvolveu como uma indústria sem regulamentação, porque o governo tinha receio de se envolver com o assunto. A fertilização in vitro é sensacional, deu vida a muitas crianças que de outro modo não teriam nascido, mas o fato é que não conhecemos a qualidade do trabalho que se faz em muitos lugares. Isso não é recomendável.
Veja - As crescentes denúncias de fraudes científicas não podem minar a credibilidade de que a ciência precisa justamente num momento em que lida com assuntos polêmicos, como a clonagem?
Baltimore - Precisamos entender que temos visto mais casos de fraude porque estamos fazendo mais ciência. Não acho que seja um assunto que já tenha chegado ao ponto de ameaçar a credibilidade dos cientistas e das suas pesquisas.
Veja - Já se passaram mais de vinte anos do escândalo em que a brasileira Thereza Imanishi-Kari foi acusada de falsificar dados num experimento em que ela trabalhava com o senhor. O seu envolvimento nesse caso, que acabou resultando na sua renúncia à presidência da Universidade Rockefeller, emperrou sua carreira de algum modo?
Baltimore - É claro que isso tornou minha vida mais difícil, mas às vezes é o preço que temos de pagar por adotar uma posição que julgamos correta. Thereza é brasileira e, por ser estrangeira, tinha mais dificuldade de se defender. Eu estava defendendo uma colega. Tenho orgulho de ter ficado ao lado dela. Thereza estava sendo acusada injustamente.
Veja - Os cientistas que se tornam celebridades mundiais com suas pesquisas podem acabar se sentindo pressionados a sempre produzir coisas espetaculares. Em alguns casos, isso pode estimular uma fraude?
Baltimore - Acredito que em sua maioria os colegas que chegaram ao ponto de ganhar fama mundial por seus trabalhos já provaram que são cientistas extraordinários. Talvez isso tenha sido um problema no caso do coreano que fraudou sua pesquisa (refere-se ao biólogo sul-coreano Woo-Suk Hwang, que fraudou um trabalho em que dizia ter clonado células-tronco embrionárias). O problema é que ele virou um superstar sem ter feito muita coisa antes. Mas é um problema raro.
Escrito por Leila às 11h47
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Entrevista com David Baltimore - 04
Veja - O senhor recebeu o Prêmio Nobel de Medicina quando tinha 37 anos, em 1975. De lá para cá, não teve de lidar com um peso excessivo sobre os ombros, um compromisso de ser genial em cada passo do seu trabalho?
Baltimore - Na verdade, é o contrário. A maioria das pessoas acha que depois de receber um Nobel você não vai fazer mais nada de relevante. Muita gente até fica impressionada quando sabe que eu ainda estou fazendo pesquisa.
Veja - O Nobel ajudou a lhe abrir portas para ganhar financiamento para suas pesquisas?
Baltimore - Nos Estados Unidos, o Nobel não abre portas. O grosso dos financiamentos vem do governo federal, e o pessoal do governo até costuma olhar quem tem um Nobel com mais atenção, fazendo um escrutínio mais rigoroso para se certificar da real importância do trabalho. Eles querem descartar a suspeita de que o laureado esteja pedindo dinheiro sem muito fundamento, confiando apenas no prestígio de ser um prêmio Nobel.
Veja - O senhor ainda fica empolgado quando aparece alguma novidade no laboratório?
Baltimore - Completamente. É empolgante participar do cotidiano da ciência, do seu passo-a-passo, do seu progresso. Sinto o mesmo entusiasmo de quando era jovem. E me entusiasmo quando estou diante de um bom texto científico, de um bom trabalho, mesmo de uma boa conversa. Eu poderia me aposentar, mas essas coisas me empolgam de verdade.
Veja - Aposentar-se, então, jamais?
Baltimore - Depende. Não sei o que virá primeiro, se a morte ou a aposentadoria.
Escrito por Leila às 11h44
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"MELECA NO ATOR"
Artigo publicado no Jornal O GLOBO de 29 de maio de 2008, escrito pelo ator Wagner Moura
“Quando estava saindo da cerimônia de entrega do prêmio APCA, há duas semanas em São Paulo, fui abordado por um rapaz meio abobalhado. Ele disse que me amava, chegou a me dar um beijo no rosto e pediu uma entrevista para seu programa de TV no interior. Mesmo estando com o táxi de porta aberta me esperando, achei que seria rude sair andando e negar a entrevista, que de alguma forma poderia ajudar o cara, sei lá, eu sou da época da gentileza, do muito obrigado e do por favor, acredito no ser humano e ainda sou canceriano e baiano, ou seja, um babaca total. Ele me perguntou uma ou duas bobagens, e eu respondi, quando, de repente, apareceu outro apresentador do programa com a mão melecada de gel, passou na minha cabeça e ficou olhando para a câmera rindo. Foi tão surreal que no começo eu não acreditei, depois fui percebendo que estava fazendo parte de um programa de TV, desses que sacaneiam as pessoas. Na hora eu pensei, como qualquer homem que sofre uma agressão, em enfiar a porrada no garoto, mas imediatamente entendi que era isso mesmo que ele queria, e aí bateu uma profunda tristeza com a condição humana, e tudo que consegui foi suspirar algo tipo "que coisa horrível" (o horror, o horror), virar as costas e entrar no carro. Mesmo assim fui perseguido por eles. Não satisfeito, o rapaz abriu a porta do táxi depois que eu entrei, eu tentei fechar de novo, e ele colocou a perna, uma coisa horrorosa, violenta mesmo. Tive vontade de dizer: cara, cê tá louco, me respeita, eu sou um pai de família! Mas fiquei quieto, tipo assalto, em que reagir é pior.
"O que vai na cabeça de um sujeito que tem como profissão jogar meleca nos outros? É a espetacularização da babaquice". O táxi foi embora. No caminho, eu pensava no fundo do poço em que chegamos. Meu Deus, será que alguém realmente acha que jogar meleca nos outros é engraçado? Qual será o próximo passo? Tacar cocô nas pessoas? Atingir os incautos com pedaços de pau para o deleite sorridente do telespectador? Compartilho minha indignação porque sei que ela diz respeito a muitos; pessoas públicas ou anônimas, que não compactuam com esse circo de horrores que faz, por exemplo, com que uma emissora de TV passe o dia INTEIRO mostrando imagens da menina Isabella. Estamos nos bestializando, nos idiotizando. É a espetacularização da babaquice. Amigos, a mediocridade é amiga da barbárie! E a coisa tá feia.
"Isso naturalmente não o impediu de colocar a cagada no ar. Afinal de contas, vai dar mais audiência". Digo isso com a consciência de quem nunca jogou o jogo bobo da celebridade. Não sou celebridade de nada, sou ator. Entendo que apareço na TV das pessoas e gosto quando alguém vem dizer que curte meu trabalho, assim como deve gostar o jornalista, o médico ou o carpinteiro que ouve um elogio. Gosto de ser conhecido pelo que faço, mas não suporto falta de educação. O preço da fama? Não engulo essa. Tive pai e mãe. Tinham pais esses paparazzi que mataram a princesa Diana? É jornalismo isso? Aliás, dá para ter respeito por um sujeito que fica escondido atrás de uma árvore para fotografar uma criança no parquinho? Dois deles perseguiram uma amiga atriz, grávida de oito meses, por dois quarteirões. Ela passou mal, e os caras continuaram fotografando. Perseguir uma grávida? Ah, mas tá reclamando de quê? Não é famoso? Então agüenta! O que que é isso, gente? Du Moscovis e Lázaro (Ramos) também já escreveram sobre o assunto, e eu acho que tem, sim, que haver alguma reação por parte dos que não estão a fim de alimentar essa palhaçada. Existe, sim, gente inteligente que não dá a mínima para as fofocas das revistas e as baixarias dos programas de TV. Existe, sim, gente que tem outros valores, como meus amigos do MHuD (Movimento Humanos Direitos), que estão preocupados é em combater o trabalho escravo, a prostituição infantil, a violência agrária, os grandes latifúndios, o aquecimento global e a corrupção. Fazer algo de útil com essa vida efêmera, sem nunca abrir mão do bom humor. Há, sim, gente que pensa diferente. E exigimos, no mínimo, não sermos melecados.
No dia seguinte, o rapaz do programa mandou um e-mail para o escritório que me agencia se desculpando por, segundo suas palavras, a "cagada" que havia feito. Isso naturalmente não o impediu de colocar a cagada no ar. Afinal de contas, vai dar mais audiência. E contra a audiência não há argumentos”.
Wagner Moura (grande ator e ser humano especialíssimo!!!)
Escrito por Leila às 11h16
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Sem palavras
Reproduzo aqui o ensaio de Roberto Pompeu de Toledo, escrito na VEJA de 16 de abril. Eu começo a ler revistas sempre pela última página. Esta semana, acabei de ler este artigo e fechei a revista. Fui me refazer do tranco e só bem depois, voltei a ela. Desculpem se retomo o Blog com dois artigos bem tristes, mas é que imagino ser fundamental tomar pé dessa realidade.
ENSAIO - ROBERTO POMPEU DE TOLEDO
A vida após a vida
Histórias de velhos perdidos na contingência de tocar a existência sem o instrumento da memória
O senhor D., de 95 anos, choca-se toda vez que vê, na televisão, notícia da morte da menina Isabella. Não que se choque com novos desenvolvimentos do caso. Como não se lembra do noticiário do dia anterior, e nem mesmo, quando chega a hora do noticiário da noite, daquele que viu à tarde, a cada noticiário trava conhecimento do caso pela primeira vez. A cada vez um choque novinho em folha. D. mora com a filha e o genro. A mulher já morreu há alguns anos. A filha chama-se Luíza, mas ele a chama de Ana, que era o nome da mulher. A família já se acostumou às confusões que povoam a mente de D. e em geral não se dá ao trabalho de corrigi-lo. Contra essa confusão específica, porém, o genro costuma se insurgir. "Se esta aqui é a Ana, que estou fazendo eu nesta casa?", pergunta.
A senhora T., de 87 anos, passa horas lendo a mesma página do mesmo livro. Sentada à mesa, acompanha com o dedo a linha em que os olhos pousam. Às vezes o dedo permanece muito tempo na mesma linha. Outras vezes, vai velozmente até o fim da página, e então volta ao início, e começa de novo. Chega uma hora em que vira a página, e então permanece nela outro longo tempo, subindo e descendo as linhas, às vezes estacionando por tempo exagerado numa delas. Quando se levanta por algum motivo, ao voltar à mesa, retoma o livro na mesma página, ou na anterior, ou, se o livro está fechado, em qualquer ponto em que venha a abri-lo. T. não apenas não grava o que leu – também não grava o que come. Pode já ter almoçado, mas, se vê a sobrinha, que chega sempre atrasada, sentar-se à mesa, ela se senta também. Se não for detida, almoçará tantas vezes quantas perceber alguém almoçando na casa. A irmã que cuida dela tem o cuidado de não deixar nenhuma comida exposta na casa. As bananas e laranjas são guardadas dentro de um armário trancado a chave.
O senhor L., de 94 anos, às vezes é levado pelo acompanhante para dar uma volta no quarteirão, na cadeira de rodas a que foi reduzido desde que quebrou a perna. Outras vezes, a filha o tira de casa para uma ida ao médico. Quando volta, ele custa a reorientar-se. "De quem é esse apartamento?", pergunta. Não adianta dizerem que é o seu próprio apartamento, ele não aceita tal explicação. "Que apartamento bom", elogia.
A senhora H., de 82 anos, costumava comparecer uma vez por mês à reunião em que, com amigas da mesma idade, costurava roupas de criança para os pobres. Como as amigas sabiam que ela andava meio esquecida, telefonaram na véspera para lembrá-la da reunião. No dia mesmo voltaram a ligar, para lembrar que o compromisso era às 15 horas. E uma amiga mais zelosa ainda telefonou de novo meia hora antes da reunião, para um último lembrete. Eis porém que a reunião se inicia e nada de H. aparecer. Passa meia hora, passa uma hora. Resolvem telefonar para a casa dela e ficam sabendo pela empregada que H. realmente chegou a sair de casa. Na rua, em vez de tomar um táxi, pôs-se a andar a pé em volta do quarteirão. Esqueceu-se de para que saíra. Quando cansou, voltou para casa. "Ainda bem que voltou", comentou a empregada. Foi a última vez que chamaram H. para a reunião.
Um subproduto do notável progresso da medicina em prolongar as vidas é a explosão do mercado de trabalho para a profissão de atendente. Outro é a redobrada atividade das fábricas de fraldas geriátricas. Outro ainda é a quantidade cada vez maior de pessoas cuja mente lhes dá adeus bem antes do corpo. As avarias da memória acabam por roubar também o passado de pessoas para as quais o futuro já faltava – e o presente é uma linha tênue demais para equilibrar com segurança um ser humano. Começa-se por esquecer os compromissos, como a senhora H. Evolui-se para não reconhecer onde se está, como o senhor L., e daí para não se lembrar da linha que acabou de ler ou da comida que acabou de comer, como a senhora T. No percurso, vai se esgarçando essa coisa que nos segura a nós mesmos chamada "eu". A certa altura, essa coisa se extingue, e a pessoa não reconhece mais a si própria. Uma população cada vez maior de eus à deriva caracteriza o admirável mundo novo deste início do século XXI.
A maior esperança de cura, ou de atenuação, dos males que afetam o cérebro dos velhos reside hoje, como no caso do diabetes ou da doença de Parkinson, nas possibilidades regenerativas das células-tronco. No Brasil, as pesquisas com células-tronco obtidas em embriões descartados encontra-se pendente de decisão do Supremo Tribunal Federal. O julgamento, iniciado no dia 5 de março, teve seu andamento suspenso por um pedido de vistas do ministro Carlos Alberto Direito. Transcorrido um mês, o ministro Direito requereu, na semana passada, a prorrogação de seu pedido, e não tem prazo para recolocar a matéria em julgamento. Pode ser nesta semana, pode ser daqui a dois anos. O ministro Direito é um católico praticante e observante das diretrizes de Roma. A Igreja Católica é contra a pesquisa com embriões em nome da vida, tal qual a entende.
Escrito por Leila às 21h52
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Que dura realidade, meu Deus!!!
Reproduzo aqui o artigo da grande escritora gaúcha, LIA LUFT, na Revista Veja, de 16 de abril. É sobre o mal de Alzheimer - esse fantasma que ronda muitas vidas e para tantos, uma realidade jamais imaginada, dura de ser encarada, penso, em todos os sentidos. Lia nos dá generosas lições de como enfrentar esse momento com nossos entes queridos.
Aproveito pra recomendar o novo livro de contos de Lia - "O silêncio dos amantes" - imperdível
Ponto de vista: Lya Luft
Diagnóstico: Alzheimer
"Como sempre nas doenças graves, devemos lembrar que a vítima não somos nós: é o outro. Nesse processo não há nada de bom, de belo, a não ser o exercício da ternura, sem esperar muito retorno"
Almocei com um amigo semanas atrás e, quando perguntei a razão de seu abatimento, ele me disse sem rodeios: "Esta manhã recebi o diagnóstico de minha mãe: é Alzheimer". Imaginei essa senhora, alegre e vital, enveredando pelas sombrias trilhas de uma enfermidade diabólica, e entendi a tristeza de meu amigo como se fosse minha. Minha própria mãe morreu aos 90 anos, depois de bem mais de uma década sendo paulatinamente envolvida na mortalha mental e emocional do Alzheimer. Uma bela mulher ativa tornou-se inexoravelmente uma estranha, raramente ostentando uma vaga semelhança com a que fora minha mãe.
A doença se manifesta em geral muito sutil: um esquecimento aqui, uma confusão ali. Uma atitude estranha aqui, outra ali, intercaladas por fases de aparente normalidade. A sociabilidade muda, os bons modos parecem esquecidos, o controle do dinheiro se torna caótico, e é dificílimo interferir. Há enorme resistência dos familiares em aceitar essa enfermidade. Para mim, minha mãe sofria episódios naturais de esquecimento. Só o choque de um dia a encontrar com uma pintura bizarra no rosto, ela tão recatada, me fez cair na duríssima realidade. Ela já não sabia – ou em longos períodos não sabia – o que estava fazendo. Algumas pessoas mais chegadas tinham me avisado: eu havia me recusado a ver.
O que eu disse a meu amigo, disse a mim mesma nos muitos longuíssimos anos daquela jornada: o doente em geral não sofre. A família, sim. O que se pode fazer? Muito pouco, além de cuidar para que ele esteja bem alimentado, bem abrigado, medicado e tratado com carinho. Nada de criticar quando não sabe mais quem somos, porque no fim não sabe mais quem ele próprio é. Quando já não se porta à mesa como antes, quando faz "artes" às vezes perigosas, ele precisa ser protegido, não mais ensinado. Não vai mesmo aprender. Como sempre nas doenças graves, devemos lembrar que a vítima não somos nós: é o outro. Nesse processo, que em geral dura muitos anos, não há nada de bom, de belo, de encantador, a não ser o exercício da ternura, da paciência e dos cuidados, sem esperar muito retorno, pois em breve seremos chamados de senhor, senhora, moça, não mais de filha, filho, meu querido. O ser amado se distancia, sem volta, sem saber, sem querer e sem que nada possa evitar: agora havia ali uma velhinha da qual eu cuidava como podia. Por fim, para a proteger de si própria, por insistência dos médicos ela foi posta na melhor clínica que pude assumir. Jamais esquecerei a dor e a culpa que me assaltaram, contrariando qualquer raciocínio. Milhares de vezes tentei me convencer de que minha mãe nem existia mais, era apenas uma velhinha de quem eu tinha de cuidar. Como ficção, funcionava; como realidade, a cada uma das centenas de visitas meu coração se partia outra vez.
Cuide de sua doente, eu disse a meu amigo, da melhor forma. Não alimente nenhuma esperança vã, pois tudo é triste, infinitamente desalentador. Uma coisa que ajuda, um pouco, é tentar entrar no universo do doente, em lugar de querer que ele retorne ao nosso. Mas cuide também de si mesmo. Tente pegar-se no colo, proteja-se da culpa insensata que nos espreita, siga sua vida. Na natureza morrem árvores jovens, e velhas árvores tortas vivem muito além da última floração. Estamos mergulhados no mistério: isso torna a vida possível mesmo quando não a entendemos.
Escrito por Leila às 21h39
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