Conversa afiada




Mais uma vez, minha adorada Lya Luft me leva às lágrimas e à reflexão. Não sou nem serei mãe nesta encarnação e isso é condição fundamental pra que eu não conheça alguns sentimentos que só quem os têm verdadeiramente são as mães ou os pais biológicos. Isso é o que eu penso, sinto mesmo, de verdade, porque convivo com muitas mães além da minha, e percebo nelas, afetos que não reconheço. Enfim...balelas à parte, quero é oferecer pra que leiam este artigo sofrido de Lya. Penso muito e às vezes fico triste, imaginando o que virá para os meus sobrinhos e agora, para meu sobrinho-neto, Joaquim, com apenas 6 meses de vida. Me sinto impotente e aflita sem poder ajudá-los a ter um pouco mais de esperança de saber que vão realizar o que querem mesmo, lá no fundo de seus corações. Exatamente como eu consegui, com tanta ajuda, meu Pai! Eles não reclamam de nada e isso também me preocupa. Será que é assim mesmo?

O que vivi na minha infância e adolescência, até poder escolher o que queria e poderia vir a ser na vida...foi tão indescritivelmente diferente e mais leve,  menos assustador, não tive os medos reais da sobrevivência difícil, desamparada não pela falta de dinheiro (e deste também), mas pela falta de perspectiva, de qualquer visão mais real sobre o que fazer, como fazer, onde, com quem...enfim. E este artigo de Lya me levou à minha juventude em Belém, com meus pais acolhendo meus sonhos e me ajudando a realizá-los. Consegui ser cantora também por isso.

No momento, finalizo meu CD cantando Renato Russo e Legião Urbana e ontem veio aqui no meu estúdio, meu sobrinho Renan, que tem 20 e poucos anos, não conhecia ainda o Rio, é formado em Comércio Exterior, mas quer mesmo é ser músico e cantor. Mora em Belém e não tem 1 puto pra se virar sozinho, não tem trabalho, pai rico ou qualquer idéia do que queira fazer com o diploma que ganhou só pra constar. Quer sim, vir morar no Rio e tentar seguir na música. Será que vai conseguir? Meu outro sobrinho, Bernardo, foi tentar a vida em São Paulo, não conseguiu nenhum trabalho que realmente acrescentasse, onde pudesse crescer e se sustentar... vacilou junto com a namorada (que felizmente ama e que o ama também) e fizeram um filho, meu amado Joaquim. Voltaram juntos pra Belém de onde sairam há poucos anos. Ele é publicitário e com quase 30 anos, recomeça a vida num sufoco danado, agora com um filhote de 6 meses. Meu Deus! São Jorge e Santa Bárbara, que regem 2010, olhem por estes meninos!


"O que devemos aos jovens" (Lya Luft)

 

 


Fiquei surpresa quando uma entrevistadora disse que em meus textos falo dos jovens como arrogantes e mal-educados. Sinto muito: essa, mais uma vez, não sou eu. Lido com palavras a vida toda, foram uma de minhas primeiras paixões e ainda me seduzem pelo misto de comunicação e confusão que causam, como nesse caso, e por sua beleza, riqueza e ambiguidade.

Escrevo repetidamente sobre juventude e infância, família e educação, cuidado e negligência. Sobre nossa falha quanto à autoridade amorosa, interesse e atenção. Tenho refletido muito sobre quanto deve ser difícil para a juventude esta época em que nós, adultos e velhos, damos aos jovens tantos maus exemplos, correndo desvairadamente atrás de mitos bobos, desperdiçando nosso tempo com coisas desimportantes, negligenciando a família, exagerando nos compromissos, sempre caindo de cansados e sem vontade ou paciência de escutar ou de falar. Penso sobretudo no desastre da educação: nem mesmo um exame de Enem tranquilo conseguimos lhes oferecer. A maciça ausência de jovens inscritos, quase a metade deles, não se deve a atrasos ou outras dificuldades, mas ao desânimo e à descrença.

De modo que, tratando dos jovens e de suas frustrações, falo sobre nós, adultos, pais, professores, autoridades, e em quanto lhes somos devedores. O que fazem os que de maneira geral deveriam ser líderes e modelos? Os escândalos públicos que nos últimos anos se repetem e se acumulam são para deixar qualquer jovem desencantado: estudar para quê? Trabalhar para quê? Pior que isso: ser honesto para quê, se nossos pretensos líderes se portam de maneira tão vergonhosa e, ano após ano, a impunidade continua reinando neste país que tenta ser ufanista?

Tenho muita empatia com a juventude, exposta a tanto descalabro, cuidada muitas vezes por pais sem informação, força nem vontade de exercer a mais básica autoridade, sem a qual a família se desintegra e os jovens são abandonados à própria sorte num mundo nem sempre bondoso e acolhedor. Quem são, quem podem ser, os ídolos desses jovens, e que possibilidades lhes oferecemos? Então, refugiam-se na tribo, com atitudes tribais: o piercing, a tatuagem, a dança ao som de música tribal, na qual se sobrepõe a batida dos tantãs. Negativa? Censurável? Necessária para muitos, a tribo é onde se sentem acolhidos, abrigados, aceitos.

Escola e família ou se declaram incapazes, ou estão assustadas, ou não se interessam mais como deveriam. Autoridades, homens públicos, supostos líderes, muitos deles a gente nem receberia em casa. O que resta? A solidão, a coragem, a audácia, o fervor, tirados do próprio desejo de sobrevivência e do otimismo que sobrar. Quero deixar claro que nem todos estão paralisados, pois muitas famílias saudáveis criam em casa um ambiente de confiança e afeto, de alegria. Muitas escolas conseguem impor a disciplina essencial para que qualquer organização ou procedimento funcione, e nem todos os políticos e governantes são corruptos. Mas quero também declarar que aqueles que o são já bastam para tirar o fervor e matar o otimismo de qualquer um.

Assim, não acho que todos os jovens sejam arrogantes, todas as crianças mal-educadas, todas as famílias disfuncionais. Um pouco da doce onipotência da juventude faz parte, pois os jovens precisam romper laços, transformar vínculos (não cuspir em cima deles) para se tornar adultos lançados a uma vida muito difícil, na qual reinam a competitividade, os modelos negativos, os problemas de mercado de trabalho, as universidades decadentes e uma sensação de bandalheira geral.

Tenho sete netos e netas. A idade deles vai de 6 a 21 anos. Todos são motivo de alegria e esperança, todos compensam, com seu jeito particular de ser, qualquer dedicação, esforço, parceria e amor da família. Não tenho nenhuma visão negativa da juventude, muito menos da infância. Acho, sim, que nós, os adultos, somos seus grandes devedores, pelo mundo que lhes estamos legando. Então, quando falo em dificuldades ou mazelas da juventude, é de nós que estou, melancolicamente, falando.

 



Escrito por Leila às 16h32
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Yoani Sánchez

Caricatura Aristide (Joany) por Yoani SánchezAcabo de visitar novamente o blog desta cubana arretada, corajosa e inteligente, claro, perseguidíssima pelos capangas de Fidel Castro espalhados pela ilha. Yoani tem 33 anos, é jornalista e escreve o que pensa, destemidamente, neste blog (http://www.desdecuba.com/generaciony/). Só Deus sabe como ela consegue colocar o blog na rede. Sim, porque em Cuba, a internet ainda é a querosene e os cubanos não tem acesso, mas apenas os funcionários credenciados e estrangeiros. Mas mesmo assim, Yoani é lida mundo afora, por milhões de pessoas. Isto quase lhe custou a vida, quando foi, recentemente, espancada em plena luz do dia em Cuba. Sugiro que acompanhemos sua luta, seus pensamentos, para nos unirmos a ela contra a violência e a falta total de liberdade que infelizmente, ainda rege a vida em Cuba e em tantos outros pontos escuros do nosso amado planeta, em pleno século XXI.

”Imagino quando a prosperidade deixará de ser considerada contrarevolucionária. Quando morar  no décimo quarto andar e estar há um ano sem elevador deixará de ser um capricho burguês”. (Yoani Sánchez)

 

 



Escrito por Leila às 17h28
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They don´t really care about us!!!!!!!

Insegura e descrente diante de tudo que tenho lido, visto e ouvido sobre esta questão do aquecimento global, parei muito pra pensar quando li o que diz este cientista político tão jovem. Tenho certeza de que mais uma vez, o mundo pagou caro pra que seus mais estelares representantes fossem até Copenhagen reafirmar juntos que todos sabem que podem ajudar, sabem como, mas que não o farão. Há interesses muito maiores e mais urgentes do que salvar os seres humanos das devastações pessoais e diárias por todo o planeta. Me dói o peito pensar no futuro. Deus nos ajude! Abaixo, reproduzo apenas o final da entrevista. E cada vez mais reafirmo minha intenção e desejo de votar na senadora Marina Silva para presidente do Brasil nas próximas eleições.

Entrevista com Bjorn Lomborg

O principal representante dos céticos diz que o combate ao aquecimento global tem de se basear em tecnologia, e não em mudanças no consumo

 

Entrevista concedida a Ronaldo França, de Copenhague

O cientista político dinamarquês Bjorn Lomborg, de 44 anos, não tem carro. Usa bicicleta ou metrô para se deslocar em Copenhague. Lomborg é um dos mais respeitados entre os pesquisadores céticos em relação aos efeitos catastróficos do aquecimento global. Seus livros e artigos provocam a ira de ambientalistas, mas seus argumentos afiados também são ouvidos com atenção pelos cientistas. Sua descrença se dá em torno da histeria criada acerca do assunto e do que se pretende fazer para solucionar o problema da elevação da temperatura. "Não sou um crítico da ciência que prova o aquecimento. Sou um crítico da política de combate ao aquecimento."

As empresas estão fazendo sua parte?
A maioria das coisas que se veem por aí é marketing. É o chamado banho verde. Estão fazendo economia de energia como sempre fizeram, desde o início do século XIX, de quando datam as estatísticas. Todas as empresas, em todos os lugares, inclusive nos Estados Unidos e na Europa, vêm reduzindo o desperdício de energia. Ou usando cada vez menos energia para cada dólar que produzem. O que é uma das maneiras de manter a liderança no mundo dos negócios. Cada vez que conseguem essa redução, anunciam que estão economizando CO2. Mas é óbvio que o que estão economizando são dólares. Não há nada de errado nisso. Só não devemos achar que elas estão salvando o planeta.

Por que o crescimento populacional não é levado em consideração nas discussões sobre clima?
Se fosse possível limitar substancialmente o crescimento da população mundial, provavelmente as emissões não aumentariam tanto. Mas você só consegue alterar essa variável dramaticamente num regime autoritário como o da China, onde o governo determina que os casais só podem ter um filho. Não acho que se vá reduzir a taxa de natalidade com informação. As pesquisas mostram que as pessoas agem de forma muito racional sobre o número de filhos que têm. Para os pobres, crianças são fonte de renda. Para os ricos, representam despesa. Então você pode interferir no tamanho da prole tornando as pessoas mais ricas. Independentemente disso, é preciso lembrar que a principal razão para os nascimentos até 2050 não é que muitas pessoas têm muitos filhos, mas porque há muitos jovens que ainda não têm filhos e querem ter. Até lá teremos provavelmente mais 2,5 bilhões de pessoas. Há muito pouco que se possa fazer sobre isso.

Se o senhor tivesse filhos, estaria preocupado com o futuro
Tenho primos que têm filhos, e alguns dos meus melhores amigos também têm. Claro que desejo que eles tenham uma vida boa. E eles terão. Vão ficar bem, serão ricos. Porque todos os filhos geneticamente gerados que conheço são brancos. Não é com eles que temos de ficar mais preocupados. É com os outros três quartos das pessoas deste planeta, a quem não sou intimamente ligado, que não são brancas, são pobres e vivem hoje uma situação difícil. O paradoxo é que a ONU espera que todos enriqueçam. Os filhos dos meus primos estarão entre quatro e oito vezes mais ricos no fim do século. As pessoas nos países em desenvolvimento estarão 35 vezes mais ricas. A média das pessoas em Bangladesh não será pobre em 2100, mas classe média alta. Ou seja, estamos pensando em ajudar pessoas que serão ricas daqui a 100 anos, mas deixando de ajudar as pessoas pobres que estão aqui agora, hoje. Esse é, para mim, o grande dilema ético: nós nos importarmos tanto com os ricos do futuro e tão pouco com os pobres do presente.

O senhor pode dar um exemplo?
O caso dos países insulares é claro. Se você olhar para Tuvalu, que tem 12 000 habitantes e pode desaparecer, verá que as pessoas de lá não vão sumir. Elas terão de se mudar, o que será triste. Mas é curioso lembrar que a cada sete horas e meia um número equivalente de pessoas morre no mundo em decorrência de doenças infecciosas facilmente curáveis. São cerca de 15 milhões de pessoas que morrem desta maneira todo ano no mundo. As pessoas de Tuvalu terão apenas de se mudar. Para mim, é muito curioso que estejamos gastando tanto dinheiro para ajudar as pessoas de Tuvalu e fazendo tão pouco pelas 12 000 que morreram nas últimas sete horas e meia. Fala-se muito em aquecimento global. Mas as pessoas de verdade têm problemas mais urgentes. A maioria das pessoas nos países em desenvolvimento, ou três quartos da população mundial, quer saber como vão sobreviver até a semana que vem.

O que se pode esperar das decisões tomadas na conferência?
Quando 120 líderes se reúnem, eles não podem não fazer um acordo, em torno de números que soam agradáveis. O problema é que não conseguiremos cumpri-lo. Faremos um lindo documento, todos vão brindar com champanhe, depois vão para casa, e nada vai acontecer. Vem sendo assim nos últimos dezoito anos. Não cumprimos o que foi acertado no Rio de Janeiro em 1992. Em Kioto, houve um compromisso legalmente assumido, no qual se prometeu cortar ainda mais, e ainda nada foi feito. Acreditar que Copenhague será diferente me parece uma fantasia política.

 



Escrito por Leila às 18h00
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Voltando pra casa

 

Há 12 dias saí de casa, rumo a Viena, na Áustria. Cantei dia 27 de novembro no Porgy and Bess (Jazz Club em Viena) e ainda estou viajando. Viajei para Praga, capital da República Tcheca, a 4 horas de trem de Viena. Neste momento, véspera da viagem de volta para o Brasil, vivo uma sensação dúbia: estou felicíssima por estar voltando pra casa, meu corpo me diz que estou viajando há meses...e ao mesmo tempo me sinto estranha, me imaginando no meu espaço de sempre, meu estúdio, minha cama, e eu, com tanto frio e silêncios acumulados dentro do corpo (aqui devemos estar com 5 graus ou menos e desde às 4 da tarde já está escuro). Imagino os sons em torno da minha casa e os comparo a esta quietude ensurdecedora e maravilhosa dos quartos de hotel da Europa. Em Viena consegui dormir 9 horas direto, sem espuminha nos ouvidos. Não tenho registro dessa quantidade de horas dormidas, pelo menos nos últimos 10 anos. A combinação do silêncio com o conforto e os compromissos em dia devem ter me deixado mais em paz do que o normal. Fora o cansaço da idade, sim, a idade. Sou mesmo outro ser, aos 49 anos. Uma maravilha esta constatação, com a única e imensa dor de saber que é urgente ser mais precisa e exata nas minhas escolhas. Se assim não for, perderei o que não ler, não vir, não ouvir, não escolher enfim... o tempo é cada vez mais curto.

Amanhã sigo cedo para Viena, onde ainda verei o Danúbio, que dizem, não é mais azul...e de novo, via Paris, amanheço no Rio, no sábado, dia 5. Volto feliz pelo que vivi nestes 12 dias, certa de que mais uma semente foi plantada e há de germinar na primavera de 2010. Reencontrei amigos queridos, abri novas portas, deixei minha música impregnada nos austríacos, branquíssimos, alvos e pasmos com a barulheira calorosa do público brasileiro que foi ao meu show e morreu de chorar matando as saudades do nosso Brasil. Viena é linda, Praga é deslumbrante! Comi bem, bebi bem demais, iluminei minha vida e ampliei meu olhar sobre o mundo. Agradeço muito e sempre a Deus, por me levar tão longe, com minha música. Que seja sempre assim! Beijos

Essa foto foi tirada há algumas horas, na praça perto do meu hotel aqui em Praga e a careta é pelo vento gelaaaaaaaaaaado! 

 



Escrito por Leila às 15h28
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CORAGEM !!!!!!!!!!!!!!!

Yoani Sanchez !!!!!!!!!!!!!


Escrito por Leila às 17h04
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Menos uma!

Daqui de onde escrevo, ouço ainda o barulho terrível da moto-serra, pondo abaixo uma árvore linda, frondosa, luminosa, nos fundos da casa de Deborah Colker. Não é na casa dela, mas na casa que sobe morro acima nos fundos da casa dela, aqui no alto do Jardim Botânico, bem ao lado da casa onde foi destruido por um incêndio todo o acervo de Hélio Oiticica, no dia meu aniversário (16/10 passado). Enquanto estava andando na esteira, fazendo exercício, vi pela janela lateral do meu apartamento, a árvore sendo chacoalhada e imaginei uma rajada de vento naquela direção. Mas me intrigou depois de algum tempo (andei 45 minutos na esteira), ela continuar sendo chacoalhada. E só ela, dentre algumas outras árvores que ainda sobrevivem nas casas em torno dela.  Era a moto-serra, nas mãos de algum bem mandado e hábil operário derrubador de árvores. Não posso crer que a árvore estivesse doente, oferecendo perigo às pessoas. O que penso e me trava o corpo todo, é que ela deve ter sido derrubada porque estava interferindo na cinematográfica vista que devem ter os moradores da casa de 4 andares que em alguns meses foi toda reconstruida e está quase pronta. Nesta mesma casa, já deixaram morrer uma outra árvore, igualmente bela e frondosa, que simplesmente secou, corroída pela falta de água e pela poeira da obra longuíssima, barulhenta, infernal. Acabei meu exercício na esteira e há pouco criei coragem e fui olhar pela janela. Mataram a árvore!



Escrito por Leila às 12h33
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Lya Luft - mulher sábia

RENOVAR SEMPRE . . .

Mês passado participei de um evento sobre o Dia da Mulher. Era um bate-papo com uma platéia composta de umas 250 mulheres de todas as raças, credos e idades. E por falar em idade, lá pelas tantas, fui questionada sobre a minha e, como não me envergonho dela, respondi. Foi um momento inesquecível... A platéia inteira fez um 'oooohh' de descrédito. Aí fiquei pensando: 'pô, estou neste auditório há quase uma hora exibindo minha inteligência, e a única coisa que provocou uma reação calorosa da mulherada foi o fato de eu não aparentar a idade que tenho? Onde é que nós estamos?'Onde não sei, mas estamos correndo atrás de algo caquético chamado 'juventude eterna'. Estão todos em busca da reversão do tempo. Acho ótimo, porque decrepitude também não é meu sonho de consumo, mas cirurgias estéticas não dão conta desse assunto sozinhas. Há um outro truque que faz com que continuemos a ser chamadas de senhoritas mesmo em idade avançada. A fonte da juventude chama-se mudança. De fato, quem é escravo da repetição está condenado a virar cadáver antes da hora. A única maneira de ser idoso sem envelhecer é não se opor a novos comportamentos, é ter disposição para guinadas. Eu pretendomorrer jovem aos 120 anos. Mudança, o que vem a ser tal coisa? Minha mãe recentemente mudou do apartamento enorme em que morou a vida toda para um bem menorzinho. Teve que vender e doar mais da metade dos móveis e tranqueiras, que havia guardado e, mesmo tendo feito isso comcerta dor, ao conquistar uma vida mais compacta e simplificada, rejuvenesceu.Uma amiga casada há 38 anos cansou das galinhagens do marido e o mandoupassear, sem temer ficar sozinha aos 65 anos. Rejuvenesceu. Uma outra cansou da pauleira urbana e trocou um baita emprego por um não tão bom, só que em Florianópolis, onde ela vai à praia sempre que tem sol. Rejuvenesceu. Toda mudança cobra um alto preço emocional. Antes de se tomar uma decisão difícil, e durante a tomada, chora-se muito, os questionamentossão inúmeros, a vida se desestabiliza. Mas então chega o depois, a coisa feita, e aí a recompensa fica escancarada na face.. Mudanças fazem milagres por nossos olhos, e é no olhar que se percebe atal juventude eterna. Um olhar opaco pode ser puxado e repuxado por um cirurgião a ponto de as rugas sumirem, só que continuará opaco porque não existe plástica que resgate seu brilho. Quem dá brilho ao olhar é a vida que a gente optou por levar.Olhe-se no espelho...

P.S - recebi esta crônica de Lya Luft de minha amada irmã Marisa. Ela já havia recebido de uma amiga. Não sei a origem de publicação, por isso não a menciono aqui. Tomara seja mesmo da Lya Luft. Mas se não for, é muito bem escrito e profundo. Já valeu ter lido! 



Escrito por Leila às 14h04
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Como espírita que sou, entendo a morte (e ainda tento aceitá-la muitas vezes), como o caminho do descanso merecido, após os acertos de contas todos durante o tempo em que se vive. Lendo este artigo (abaixo), acalmei por alguns segundos o meu pavor da hora em que tiver que me confrontar com a perda de meus pais. Ao mesmo tempo em que penso: como sei que eles irão desencarnar antes de mim? Enfim... duros questionamentos, pensamentos sofridos sobre isso, a caminho dos meus 50 anos.Um quarto de século vivido imprime no corpo e na alma, mudanças radicais. As boas, são infinitas e as desfruto com profunda alegria; as ruins, não tem volta. “É a vida e é bonita e é bonita” !!!

Artigo publicado na Revista Veja de 9 set 09

O tabu da morte

"Perder o ser amado não significa deixar de tê-lo ao nosso lado. Graças à memória, ele pode permanecer conosco. Fazer o luto é entender isso. Implica tempo e um trabalho subjetivo que leva à consolação"

Betty Millan

psicanalista e escritora

O amor e a morte são os dois grandes temas da vida. Sobre o primeiro, recebo muitos e-mails endereçados à minha coluna em VEJA.com. Sobre o segundo, raramente alguém me envia correspondência. Resolvi escrever a respeito da morte porque ela é inelutável – mais dia, menos dia, todos nos confrontamos com o fim.

Entre nós, ocidentais, o tema da morte é um tabu. Erguemos um muro entre os mortos e os vivos, como se assim pudéssemos afastar-nos dela. A palavra de ordem é não falar disso. À diferença de nós, os povos primitivos cultuavam os ancestrais não só para entrar em contato com o morto, no intuito de reverenciá-lo, como para se fazer ajudar por ele. O morto era integrado ao mundo dos vivos, que se separavam dele sem perdê-lo.

Na falta de um culto dos ancestrais, o recurso que nós temos para superar o drama da morte é a rememoração. Perder o ser amado não significa deixar de tê-lo ao nosso lado. Graças à memória, ele pode permanecer conosco. Fazer o luto é entender isso. Implica tempo e um trabalho subjetivo que leva à consolação. O chamado "trabalho de luto", no linguajar dos psicanalistas.

A morte tem de ser desdramatizada para que nós possamos sobreviver a ela, e não desperdiçar o tempo que nos resta. Já no século XVI, o pensador francês Montaigne, que refletiu sobre praticamente todos os temas de interesse, diz em seus Ensaios que é preciso não estranhar a morte, incitando o leitor a se acostumar com ela porque, "como não sabemos onde ela nos espera, é melhor esperá-la em todo lugar". Para Montaigne, essa é a condição da liberdade.

Acostumar-se com a ideia da morte não significa se preocupar com ela. Nada é pior do que viver angustiado diante da ideia de não poder conservar o ser amado, e conservar-se vivo, até o final dos tempos. Quem vive assim torna-se infeliz antes da hora. Preocupar-se com o futuro significa perder o presente, deixar de gozar a existência. Temer a perda é o mesmo que perder.

Carlito Maia, que foi, sobretudo, um filósofo popular brasileiro, dizia que de nada adianta preocupar-se com um problema. Temos de nos ocupar dele e ponto. Porque ocupar-se é uma forma de superar o problema – e viver. Preocupar-se, ao contrário, é uma forma de se enterrar em vida – e morrer. Sabedor disso, ele era tão leve quanto solidário. Valia-se da sua posição prestigiosa na Rede Globo para exercer uma espécie de flower power – celebrava, por exemplo, os eventos culturais de São Paulo, enviando aos amigos flores com bilhetes inesquecíveis. Não está mais vivo, porém, graças ao seu espírito, continua entre nós. O escritor vive para escrever; Carlito Maia viveu para merecer a palavra "saudoso". É bom tê-lo ao lado.


P.S - Não conheci Carlito Maia, mas recebi inúmeras correspondências dele pelos Correios, nos tempos sem computador. Ele me desejava bom show, boa viagem, bom dia, e me mandava artigos fantásticos, com que me deleitei muitas horas da minha vida. Foi um ser humano e um escritor singular, inesquecível. Um beijo. Leila


Escrito por Leila às 17h17
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Entrevista interessante!

Publicada nas páginas amarelas da Revista VEJA de 16 set 09

O negócio é ser verde

A consultora francesa, que assessora grandes companhias em assuntos ambientais, diz que é inevitável que as empresas adaptem seus modelos de negócio à sustentabilidade

"Plantar árvores não é o suficiente para uma companhia convencer o consumidor de que protege o ambiente. É preciso fazer mais"

A especialidade da consultora francesa Élisabeth Laville, de 43 anos, é ajudar empresas a implantar políticas de sustentabilidade ambiental em suas atividades. Para ela, as atitudes sustentáveis deixaram de ser uma escolha das companhias para se tornar pilares de sua sobrevivência e um sinal de viço das economias. Hoje, defende ela, antes de comprar qualquer artigo, o consumidor tem o direito de saber as condições ambientais em que ele foi produzido. Élisabeth é autora do livro A Empresa Verde (Editora Õte), que está na terceira edição na França e acaba de ser lançado no Brasil. Ela cita uma série de exemplos que demonstram como as atitudes sustentáveis estão sendo incorporadas à rotina das empresas e desfaz o mito de que a sustentabilidade inviabiliza os lucros. De passagem por São Paulo, Élisabeth deu a seguinte entrevista a VEJA.

O que a senhora acha de ações como a dos supermercados brasileiros que deixaram de comprar carne e soja produzidas em áreas devastadas ilegalmente na Amazônia?
Acho que qualquer um que possua alguma influência nesse sentido deve usá-la, pois a responsabilidade nesse terreno é de todos. Se o consumidor sabe que comer muita carne vermelha não é bom para a saúde, como dizem os estudos de cardiologia há duas décadas, e que sua produção tem impacto nas mudanças climáticas, é sua responsabilidade comer menos carne. A carne responde por 20% das emissões de dióxido de carbono (CO2) no mundo. A partir do momento em que recebo essas informações, fazer algo é minha responsabilidade como consumidora. O mesmo vale para aqueles que comercializam os produtos no ponto de venda. Até porque eles sabem melhor que o consumidor final a procedência dos artigos e as condições em que são produzidos.

Empresas cuja atividade é necessariamente poluente, como as que extraem minérios ou petróleo, conseguem compensar os danos ao meio ambiente com investimentos em projetos sociais ou ambientais?
Esse é um primeiro passo. A solução é criar modelos de negócio sustentáveis para substituir os antigos. A companhia petrolífera BP anunciou que em trinta anos deixará de ser uma produtora de petróleo para se tornar uma produtora de energia, com 50% dela proveniente de fontes renováveis. Se isso de fato acontecer, será um exemplo de troca de um modelo não sustentável por um sustentável. Um caso curioso é o das empresas de coleta de lixo. Elas vendem a ideia de que são sustentáveis porque tratam o lixo produzido pelos outros. No entanto, seus lucros crescem com o aumento da produção de lixo, o que não é nada sustentável. O que essas empresas precisam fazer é criar soluções para faturar com a redução do lixo produzido. Para isso, elas poderiam desenvolver tecnologias que ajudassem as indústrias a desperdiçar menos. Ou trabalhar em parceria com os municípios, de maneira a transformar o lixo em produtos. São Francisco, nos Estados Unidos, transforma lixo orgânico em adubo usado nos vinhedos do Vale do Napa.

É ético tentar vender produtos apelando para o fato de que a empresa usa uma parte de seu lucro para plantar árvores?
Existem pesquisas de mercado mostrando que esse tipo de propaganda não convence o consumidor de que a empresa está realmente comprometida com a sustentabilidade. Plantar árvores é apenas o primeiro estágio para que uma empresa se torne sustentável. Mas talvez seja o sinal de que está disposta a promover outras mudanças.

Em sua opinião, o barulho feito por entidades como o Greenpeace pode mudar a cultura das empresas que elas criticam?
O Greenpeace tem o mérito de, muitas vezes, saber mais sobre determinadas questões de uma empresa do que ela própria. Eles são assessorados por bons especialistas e produzem relatórios de qualidade. O Greenpeace fez uma campanha contra os lenços de papel produzidos pela Kimberly-Clark, que cortava árvores da floresta para fabricá-los. Essa empresa anunciou mudanças, como o uso de madeira certificada e papel reciclado. O Greenpeace acabou estabelecendo uma parceria.

Empresas como Wal-Mart e McDonald’s, que eram vistas como inimigas do meio ambiente, não são mais tratadas como vilãs. Mudou a forma de essas companhias trabalharem ou mudou a posição dos ecologistas?
Houve mudanças nos dois lados. Ambas estão mais abertas ao diálogo. Recentemente, o Green-peace procurou minha empresa porque estava produzindo um guia sobre sustentabilidade e queria citar ações positivas de um cliente meu. A princípio, o cliente nem sequer queria se reunir com os representantes da entidade, porque achava que ela tinha planos de prejudicá-lo. Mas não era nada disso. Eles apenas buscavam informações positivas sobre a empresa.

Colaborações entre empresas e ONGs são mais frequentes hoje do que quando a senhora começou a trabalhar na área ambiental, em 1993?
Sim. Muitas empresas já percebem que, para se tornar mais sustentáveis, precisam de colaboração. Há algum tempo, a Unilever enfrentou um problema de ordem prática. O bacalhau congelado que ela vendia estava acabando no mar. A solução foi buscar uma parceria com a organização ambientalista World Wildlife Fund (WWF), que a ajudou a desenvolver um projeto de pesca sustentável. Ao colaborarem, todos ganham.

Depois dos carros, os aviões são os vilões da vez entre os ambientalistas, pela poluição que seus motores produzem. É possível, num mundo globalizado, pedir que as pessoas viajem menos de avião?
Sim. O avanço da tecnologia tende a facilitar esse comportamento. Muitas viagens podem ser evitadas substituindo-se os encontros de negócios por reuniões virtuais via computador, por exemplo. Por enquanto, o mais importante é fazer com que as pessoas tenham conhecimento de que suas viagens têm impacto sobre o meio ambiente, já que os aviões emitem grande quantidade de CO2. Para vir ao Brasil, paguei uma taxa extra, de 120 euros, que será usada para compensar o impacto ambiental resultante da viagem. Não só as passagens de avião, mas também outros produtos, terão de incorporar no seu preço uma compensação pelo impacto ambiental que provocam.

Como combater a poluição causada pelos carros?
O ideal é que se use o carro o mínimo possível. É claro que, quanto maior a mobilização da sociedade e do governo para facilitar que o o carro fique na garagem, melhor. Isso inclui investimentos em transporte público, mas também ações sociais, como a Vélib, em Paris. Milhares de bicicletas foram espalhadas em pontos específicos da cidade e podem ser utilizadas pela população a um preço muito baixo. Essa ação visa a estimular o cidadão a trocar o carro pela bicicleta em trajetos curtos, sem precisar comprá-la, o que é muito ecológico. É bom para o ambiente e para a saúde. Eu mesma, que moro em Paris, uso esse sistema e evito, sempre que possível, andar de carro e de avião.

Que outras atitudes sustentáveis a senhora incorporou à sua rotina?
Depois que tive minha filha, hoje com 4 anos, fiquei radical quanto a determinadas questões. Ela entrou para a escola recentemente, e constatei que os alimentos servidos lá eram ricos em gorduras e carboidratos. Disseram-me que seria impraticável adotar um novo cardápio sem que outras instituições aderissem a ele. Procurei essas escolas e consegui que aderissem à mudança na alimentação das crianças. Ou seja, mesmo atitudes simples podem ter impacto para as gerações futuras. Não consigo entender por que as pessoas não se preocupam com o mundo que deixarão para seus descendentes. Na Europa, onde uma parte da população costuma esquiar, os adultos não pensam que, ao ter atitudes antiecológicas, privarão seus filhos ou netos do esporte. Dez por cento das estações de esqui dos Alpes estão sob risco de fechar, pois não há mais neve como antes. Outro hábito que incorporei foi comprar produtos de limpeza e alimentos orgânicos. Essas atitudes podem ter enorme impacto na saúde de todos.

Os alimentos orgânicos costumam ser bem mais caros. Não é inviável popularizá-los?
Nos últimos trinta anos, o dinheiro que os franceses gastam com comida caiu pela metade. Os alimentos ficaram mais baratos, mas não necessariamente mais saudáveis. No mesmo período, os gastos com saúde dobraram. A princípio, pode parecer ótimo sinal o fato de a comida ficar mais barata, mas não é bem assim. O baixo preço significa que ali não estão incluídos os gastos sociais, ecológicos nem os de futuros problemas de saúde decorrentes do uso de agrotóxicos, por exemplo. Um estudo feito pela WWF com mulheres de três gerações mostrou que a concentração de substâncias químicas no corpo das crianças era maior do que no das jovens. Estas, por sua vez, tinham no organismo concentração maior do que no das mais velhas. Ou seja: de uma geração para outra, houve um aumento de substâncias tóxicas. O contato com agentes poluentes cresceu tanto no ambiente externo como dentro de casa.

É possível tornar os alimentos orgânicos mais baratos?
Acho que é uma questão de tempo até que a exceção se torne regra. Se todos começarem a exigir orgânicos no mercado, eles vão baratear. Foi o que aconteceu com outros produtos, como o ar-condicionado dos carros, que antes era usado por poucas pessoas, e o telefone celular, que custava caríssimo e hoje pode sair de graça. É uma questão também de escolha do comprador. Na França, há um sistema interessante, que consiste em pagar uma quantia mensal a uma rede de produtores, e semanalmente eles entregam na sua casa uma cesta com os melhores alimentos disponíveis. Isso facilita o processo produtivo sustentável, pois se recebe o que foi produzido naquela estação, por produtores locais, sem gastar combustível para importar produtos de outros países.

Em sua viagem pelo Brasil, que iniciativas ecológicas a surpreenderam positivamente?
Passei alguns dias em um vilarejo perto de Fortaleza chamado Prainha do Canto Verde, que se mantém de maneira sustentável, vive da pesca e evita publicidade para não atrair turistas demais. A comunidade é organizada, e os jovens têm plena noção de que a preservação do local é o que vai garantir seu sustento. Perguntei a esses jovens se gostariam de ir para os centros urbanos. Eles não querem, pois sabem que, numa grande cidade, fatalmente acabariam em favelas. Também soube de outros casos interessantes de iniciativas sustentáveis, como o dos produtores de café que plantam árvores e cultivam café sob elas, protegendo a floresta.

O que a surpreendeu negativamente no país?
As cidades, que não têm planejamento. Elas vão se espalhando. São Paulo, por exemplo, é como Los Angeles, que força o cidadão a usar o carro e mantém o padrão viver-trabalhar-comprar. Um amigo meu, que mora há anos em Los Angeles, ficou sem carro pela primeira vez pouco tempo atrás e simplesmente se sentiu perdido, sem poder se deslocar direito

Como a senhora vê o dilema entre preservar a Floresta Amazônica e desmatar parte dela para produzir riquezas?
A questão difícil sobre a Amazônia é que, preservada, ela oferece um benefício gratuito, mas não lucrativo. Talvez a solução seja encontrar uma forma de calcular quanto aquele ecossistema preservado representa, estabelecer um valor para que ele seja preservado, tornando-o viável economicamente também para as pessoas que estão deixando de ganhar dinheiro ao manter as árvores. O ecossistema preservado pode ser trocado por créditos de carbono.

por Paula Neiva | Revista Veja



Escrito por Leila às 16h41
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M A R I N A DA S I L V A

Sofri tanto quando perdemos Gabeira para a prefeitura do Rio, que agora, volto a ter esperança de que podemos, com Marina da silva, lembrar que nem tudo está perdido e, que, mesmo não conseguindo elegê-la para presidir o Brasil, teremos sua voz e inteligência, iluminando a vida da gente e o debate político nesta república insana. Viva Marina da Silva!

Marina Imaculada (Entrevista publicada nas páginas amarelas da Revista Veja de 2 set 09)

Politicamente correta, com biografia sem nódoas e uma doçura sem par, a senadora verde diz por que deixou o PT e o que defenderá na corrida à Presidência da República em 2010

 Marina Silva | Foto Lailson Santos"Também sou negra, mas seria muito pretensioso da minha parte me apresentar como similar ao Obama"

A senadora Marina Silva, do Acre, causou um abalo amazônico ao Partido dos Trabalhadores. Depois de trinta anos de militância aguerrida, abandonou a legenda e marchou para o Partido Verde, seduzida por um convite para ser a candidata da agremiação à Presidência da República em 2010. Para o PT, o prejuízo foi duplo: não só perdeu um de seus poucos integrantes imaculadamente éticos, como ganhou uma adversária eleitoral de peso. Os petistas temem, e com razão, que a candidatura de Marina tire muitos votos da sua candidata ao Planalto, a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. Na semana passada, Marina, de 51 anos, casada, quatro filhos, explicou a VEJA as razões que a levaram a deixar o PT – e opinou sobre temas como aborto, legalização da maconha e criacionismo.

A senhora será candidata a presidente pelo Partido Verde?
Ainda não é hora de assumir candidatura. Há uma grande possibilidade de que isso aconteça, mas só anunciarei minha decisão em 2010.

Se sua candidatura sair, como parece provável, que perfil de eleitor a senhora pretende buscar?
Os jovens. Eles estão começando a reencontrar as utopias. Estão vendo que é possível se mobilizar a favor do Brasil, da sustentabilidade e do planeta. Minha geração ajudou a redemocratizar o país porque tínhamos mantenedores de utopia. Gente como Chico Mendes, Florestan Fernandes, Paulo Freire, Luiz Inácio Lula da Silva, Fernando Henrique Cardoso, que sustentava nossos sonhos e servia de referência. Agora, aos 51 anos, quero fazer o que eles fizeram por mim. Quero ser mantenedora de utopias e mobilizar as pessoas

Sua saída abalou o PT. Além da possibilidade de disputar o Planalto, o que mais a moveu?
O PT teve uma visão progressista nos seus primeiros anos de vida, mas não fez a transição para os temas do século XXI. Isso me incomodava. O desafio dos nossos dias é dar resposta às crises ambiental e econômica, integrando duas questões fundamentais: estimular a criação de empregos e fomentar o desenvolvimento sem destruir o planeta. O crescimento econômico não pode acarretar mais efeitos negativos que positivos. Infelizmente, o PT não percebe isso. Cansei de tentar convencer o partido de que a questão do desenvolvimento sustentável é estratégica – como a sociedade, aliás, já sabe. Hoje, as pessoas podem eleger muito mais do que o presidente, o senador e o deputado. Elas podem optar por comprar madeira certificada ou carne e cereais produzidos em áreas que respeitam as reservas legais. A sociedade passou a fazer escolhas no seu dia a dia também baseada em valores éticos.

A crise moral que se abateu sobre o PT durante o governo Lula pesou na decisão?
Os erros cometidos pelo PT foram graves, mas estão sendo corrigidos e investigados. Quando da criação do PT, eu idealizava uma agremiação perfeita. Hoje, sei que isso não existe. Minha decisão não foi motivada pelos tropeços morais do partido, mesmo porque eles foram cometidos por uma minoria. Saí do PT, repito, por falta de atenção ao tema da sustentabilidade.

Ou seja, apesar de mudar de sigla, a senhora não rompeu com o petismo?
De jeito nenhum. Tenho um sentimento que mistura gratidão e perda em relação ao PT. Sair do partido foi, para mim, um processo muito doloroso. Perdi quase 3 quilos. Foi difícil explicar até para meus filhos. No álbum de fotografias, cada um deles está sempre com uma estrelinha do partido. É como se eu tivesse dividido uma casa por muito tempo com um grupo de pessoas que me deram muitas alegrias e alguns constrangimentos. Mudei de casa, mas continuo na mesma rua, na mesma vizinhança.

No período em que comandou o Ministério do Meio Ambiente, a senhora acumulou desavenças com a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. Como será enfrentá-la em sua eventual campanha à Presidência?
Não vou me colocar numa posição de vítima em relação à ministra Dilma. Quando eu era ministra e tínhamos divergências, era o presidente Lula quem arbitrava a solução. Não é por ter divergências com Dilma que vou transformá-la em vilã. Acredito que o Brasil pode fazer obras de infraestrutura com base no critério de sustentabilidade. Temos visões diferentes, mas não vou fazer o discurso fácil da demonização de quem quer que seja.

Um de seus maiores embates com a ministra Dilma foi causado pelas pressões da Casa Civil para licenciar as hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio, no Rio Madeira. A senhora é contra a construção de usinas?
No Brasil, quando a gente levanta algum "porém", já dizem que somos contra. Nunca me opus a nenhuma hidrelétrica. O que aconteceu naquele caso foi que eu disse que, antes de construir uma usina enorme no meio do rio, era preciso resolver o problema do mercúrio, de sedimentos, dos bagres, das populações locais e da malária. E eu tinha razão. Como as pessoas traduziram a minha posição? Dizendo que eu era contra hidrelétricas. Isso é falso.

Se a senhora for eleita presidente, proibirá o cultivo de transgênicos?
Eis outra falácia: dizer que sou contra os transgênicos. Nunca fui. Sou a favor, isso sim, de um regime de coexistência, em que seria possível ter transgênicos e não transgênicos. Mas agora esse debate está prejudicado, porque a legislação aprovada é tão permissiva que não será mais possível o modelo de coexistência. Já há uma contaminação irreversível das lavouras de milho, algodão e soja.

O que a senhora mudaria no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC)?
Eu não teria essa visão de só acelerar o crescimento. Buscaria o desenvolvimento com sustentabilidade, para que isso pudesse ser traduzido em qualidade de vida para as pessoas. Obviamente, é necessário que o país tenha infraestrutura adequada. Mas é preciso evitar os riscos e problemas que os empreendimentos podem trazer, sobretudo na questão ambiental.

Na economia, faria mudanças?
Não vou me colocar no lugar dos economistas. Prefiro ficar no lugar de política. Em linhas gerais, acho que o estado não deve se colocar como uma força que suplanta a capacidade criativa do mercado. Nem o estado deve ser onipresente, nem o mercado deve ser deificado. Também gosto da ideia do Banco Central com autonomia, como está, mas acho que estão certos os que defendem juros mais baixos.

No seu novo partido, o PV, há uma corrente que defende a descriminalização da maconha. Como a senhora se posiciona a respeito desse assunto?
Não sou favorável. Existem muitos argumentos em favor da descriminalização. Eles são defendidos por pessoas sérias e devem ser respeitados. Mas questões como essa não podem ser decididas pelo Executivo, e sim pelo Legislativo, que representa a sociedade. A minha posição não será um problema, porque o PV pretende aprovar na próxima convenção uma cláusula de consciência, para que haja divergências de opinião dentro do partido.

Os Estados Unidos elegeram o primeiro presidente negro de sua história, Barack Obama. Ele é fonte de inspiração?
Eu também sou negra, mas seria muito pretensioso da minha parte me colocar como similar ao Obama. Ele é uma inspiração para todas as pessoas que ousam sonhar. A questão racial teve um peso importante na eleição americana. Mas os Estados Unidos têm uma realidade diferente da do Brasil. Eu nunca fui vítima de preconceito racial aqui.

A senhora poderia se apresentar como uma candidata negra na campanha presidencial?
Não. É legítimo que as pessoas decidam votar em alguém por se identificar com alguma de suas características, como o fato de ser mulher, negra e de origem humilde. Mas seria oportunismo explorar isso numa campanha. O Brasil tem uma vasta diversidade étnica e deve conviver com as suas diferentes realidades. Caetano Veloso (cantor baiano) já disse que "Narciso acha feio o que não é espelho". Nós temos de aprender a nos relacionar com as diferenças, e não estimular a divisão. A história engraçada é que, durante as prévias do Partido Democrata americano, quando a Hillary Clinton disputava a vaga com Obama, um amigo meu brincou comigo dizendo que os Estados Unidos tinham de escolher entre uma mulher e um negro, e, se eu fosse candidata no Brasil, não teríamos esse problema, porque sou mulher e negra.

A senhora é a favor da política de cotas raciais para o acesso às universidades?
Há quem ache que as cotas levam à segregação, mas eu sou a favor de que se mantenha essa política por um período determinado. Acho que há, sim, um resgate a ser feito de negros e índios, uma espécie de discriminação positiva.

Mas a senhora entrou numa universidade pública sem precisar de cotas, embora seja negra, de origem humilde e alfabetizada pelo Mobral.
Sou uma exceção. Tenho sete irmãos que não chegaram lá.

Aos 16 anos, a senhora deixou o seringal e foi para a cidade, a fim de se tornar freira. Como uma católica tão fervorosa trocou a Igreja pela Assembleia de Deus?
Fui católica praticante por 37 anos, um aspecto fundamental para a construção do meu senso de ética. Meu ingresso na Assembleia de Deus foi fruto de uma experiência de fé, que não se deu pela força ou pela violência, mas pelo toque do Espírito. Para quem não tem fé, não há como compreender. Esse meu processo interior aconteceu em 1997, quando já fazia um ano e oito meses que eu não me levantava da cama, com diagnóstico de contaminação por metais pesados. Hoje, estou bem.

A senhora é mesmo partidária do criacionismo, a visão religiosa segundo a qual Deus criou o mundo tal como ele é hoje, em oposição ao evolucionismo?
Eu creio que Deus criou todas as coisas como elas são, mas isso não significa que descreia da ciência. Não é necessário contrapor a ciência à religião. Há médicos, pesquisadores e cientistas que, apesar de todo o conhecimento científico, creem em Deus.

O criacionismo deveria ser ensinado nas escolas?
Uma vez, fiz uma palestra em uma escola adventista e me perguntaram sobre essa questão. Respondi que, desde que ensinem também o evolucionismo, não vejo problema, porque os jovens têm a oportunidade de fazer suas escolhas. Ou seja, não me oponho. Mas jamais defendi a ideia de que o criacionismo seja matéria obrigatória nas escolas, nem pretendo defender isso. Sou professora e uma pessoa que tem fé. Como 90% dos brasileiros, acredito que Deus criou o mundo. Só isso.

A senhora é contra todo tipo de aborto, mesmo os previstos em lei, como em casos de estupro?
Não julgo quem o faz. Quando uma mulher recorre ao aborto, está em um momento de dor, sofrimento e desamparo. Mas eu, pessoalmente, não defendo o aborto, defendo a vida. É uma questão de fé. Tenho a clareza, porém, de que o estado deve cumprir as leis que existem. Acho apenas que qualquer mudança nessa legislação, por envolver questões éticas e morais, deveria ser objeto de um plebiscito.

Seu histórico médico inclui doenças muito sérias, como cinco malárias, três hepatites e uma leishmaniose. A senhora acredita que tem condições físicas de enfrentar uma campanha presidencial?
Ainda não sou candidata, mas, se for, encontrarei forças no mesmo lugar onde busquei nas quatro vezes em que cheguei a ser desenganada pelos médicos: na fé e na ciência.

por Sandra Brasil | Revista Veja



Escrito por Leila às 13h03
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Acordo com desejo de continuar deitada, ao lado de Maricotinha, no quentinho da nossa cama. Sem saber se há sol lá fora, pela ventania nas folhas, imagino que nem há. Depois de algum "vou não vou", acabo me levantando e, claro, Maricota vai junto. Lavo o rosto, tomo a água que sobrou na cabeceira, visto a roupa pra fazer ginástica, casaco de frio por cima e vou fazer meu café. Mesa posta, café quentinho, queijo no finalzinho, puxo pra perto a cadeira branca e lá vem Maricota, ganhar feliz seus pedacinhos diários de queijo branco. Esse ritual me encanta! 45 minutos na esteira a 6.4, mais meia hora entre abdominais que eu detesto de 4 tipos diferentes, mais4 diferentes formas de levantar e baixar pesos de 3 e 4 quilos, subo para um banho quentinho e já desço. Computador ligado, leio e respondo e-mails vários, mando fotos da festa linda da prima Virginia em São Paulo este fim de semana, e vou pro piano. Ligo a Digi, o G5, vou pro I Tunes e pronto: Legião Urbana e Renato Russo no mais profundo das veias. Tomara eu consiga achar a minha cara no que tenho ouvido e consiga dar voz a essa música tão diversa da que faço, ouço e canto. Hoje, meio jururu, meio nublada, reproduzo a que, há pouco, quase me enlouqueceu. Tem 11 minutos e uns quebrados. A letra é genial.

METAL CONTRA AS NUVENS

(Dado Villa-lobos / Renato Russo / Marcelo Bonfá)

 

I

Não sou escravo de ninguém

Ninguém senhor do meu domínio

Sei o que devo defender

E por valor eu tenho

E temo o que agora se desfaz

 

Viajamos sete léguas

Por entre abismos e florestas

Por Deus nunca me vi tão só

É a própria fé o que destrói

Estes são dias desleais

 

Eu sou metal - raio, relâmpago e trovão

Eu sou metal, eu sou o ouro em seu brasão

Eu sou metal: me sabe o sopro do dragão

 

Reconheço meu pesar

Quando tudo é traição

O que venho encontrar

É a virtude em outras mãos.

 

Mas minha terra é a terra que é minha

E sempre será minha terra

Tem a lua, tem estrelas e sempre terá

 

II

Quase acreditei na sua promessa

E o que vejo é fome e destruição

Perdi a minha sela e a minha espada

Perdi o meu castelo e minha princesa

 

Quase acreditei, quase acreditei

 

E, por honra, se existir verdade

Existem os tolos e existe o ladrão

E há quem se alimente do que é roubo.

 

Vou guardar o meu tesouro

Caso você esteja mentindo.

 

Olha o sopro do dragão

 

III

É a verdade o que assombra

O descaso que condena

A estupidez o que destrói

 

Eu vejo tudo que se foi

E o que não existe mais

Tenho os sentidos já dormentes

O corpo quer, a alma entende

 

Esta é a terra-de-ninguém

Sei que devo resistir -

Eu quero a espada em minhas mãos

 

Eu sou metal - raio, relâmpago e trovão

Eu sou metal, eu sou o ouro em seu brasão

Eu sou metal: me sabe o sopro do dragão

 

Não me entrego sem lutar

Tenho ainda coração

Não aprendi a me render

Que caia o inimigo então

 

IV

- Tudo passa, tudo passará

 

E nossa estória não estará pelo avesso

Assim, sem final feliz

Teremos coisas bonitas pra contar

 

E até lá, vamos viver

Temos muito ainda por fazer

Não olhe pra trás -

Apenas começamos

O mundo começa agora -

Apenas começamos.

 



Escrito por Leila às 13h13
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Rio - Tóquio

Amanhã sigo pra mais uma temporada de shows no Japão. Deus nos ajude! Novamente o Blue Note, agora com meu querido Oscar Castro Neves, mestre absoluto, parceiro sintonizado com a alegria, o bom humor, o bom gosto e o prazer de tocar, cantar, estar junto. Conosco, Airto Moreira, lenda viva da percussão brasileira que fez história fora do Brasil...e segurando o tranco, o grande Marcelo Mariano no baixo, Paulo Calazans no piano e teclados e Marco Bosco, nosso cicerone e guia máximo, na bateria. Em 12 shows nos 6 dias cantando no subsolo mais famoso de Tóquio, vou me reencontrar com o público japonês, atento, caloroso, querido, tão especial pra mim desde o começo da minha carreira, quando em 1986 lá estive pela primeira vez.

Até breve!

Arigatô!



Escrito por Leila às 21h48
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Assino embaixo

Caso Sean : Assim é se lhe parece

Cora Rónai

 Jornal O Globo 10/03/09

 

Tenho acompanhado, primeiro pela internet e agora por todos os cantos, a história do Sean, o garoto que vem sendo disputado pelo pai americano e pela família brasileira. E cheguei, finalmente, à minha conclusão definitiva: um bom juiz de vara de família é criatura que, ao morrer, merece ir direto para o céu, sem escala, com todas as mordomias da Primeira Classe! Uma coisa é discutir o caso na mesa de um bar, nas caixas de comentários dos blogs ou mesmo aqui nesta crônica, opinião amplificada porque sai no jornal mas, ao fim e ao cabo, só isso, uma opinião. Outra, bem diferente, é ter de tomar a decisão real que vai afetar, de forma dramática, a vida dos envolvidos. Ouve-se um lado, e os fatos são incontestáveis; ouve-se o outro, e é claro que tem toda a razão; ouve-se um terceiro e é por aí mesmo; e assim sucessivamente. Pirandello perde. 

Como quase todo mundo, acho que o ideal para o garoto seria que o pai americano e a família brasileira entrassem em acordo, e que ele pudesse transitar livremente de um lado para outro, de um país para outro. Ao que tudo indica, Sean não corre maiores riscos nem nos Estados Unidos, nem aqui: afinal, se a briga está acontecendo é, em tese, por excesso, e não falta, de amor. 

De qualquer forma, antes de ir adiante, aviso: não sou nada imparcial em relação ao caso. Ao contrário de quase todo mundo, pelo menos nas campanhas histéricas que vejo na internet, torço, e torço muito, para que o menino possa continuar no Brasil. Aqui estão as referências afetivas que lhe restaram da mãe; além disso, entre a família nuclear (pai, mãe, filhos) e a grande família (pai, mãe e filhos, mais tios, primos, avós e quem mais houver) sou, sempre, por esta. Tenho uma visão latina da vida: quanto mais gente houver em torno de uma criança, sobretudo de uma criança órfã, melhor. Vocês conhecem o provérbio africano, não é? "É preciso uma aldeia para fazer um homem.” Pois. Acredito nele.

Acho que seria uma barbaridade arrancar do Brasil, sem mais nem menos, um menino que viveu aqui a maior parte da vida, e a sua formação essencial. E acho que talvez tenha sido por isso que, desde o começo, fiquei com um pé atrás em relação ao pai, que logo após a morte da ex-mulher já estava aqui para levar a criança embora, depois de passar anos sem vê-la. Acrescentar ao trauma da perda da mãe a perda da família, da irmã recém-nascida, dos amigos, da escola e da cidade não me pareceu ato de quem tivesse o bem-estar do menino em mente. 

Também não sou imparcial porque sou avó, e porque não consigo deixar de me solidarizar com uma mulher que, depois de passar pela dor de perder a filha tão jovem, e de um jeito tão estúpido, agora é ameaçada de perder o neto para um homem que lhe é praticamente um desconhecido. Eu também lutaria pelo meu neto, ora se não.



Escrito por Leila às 13h18
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cont. artigo Cora Rónai

Tirando isso, há certas coisas que me desagradam profundamente nessa história, a começar pela forma midiática com que o pai passou a se manifestar e a expor o filho ao público, uma vez desaparecida a mulher que poderia contradizê-lo. A essa altura, aliás, uma das principais acusações que lhe faz o lado brasileiro, a de ser um desempregado, já não faz qualquer sentido. Ele virou pai profissional e, quer recupere Sean quer não, certamente escreverá um livro sobre a sua luta, e venderá os direitos para o cinema; dará palestras motivacionais muito bem pagas e, como é bonito, receberá convites para fazer anúncios de produtos diversos. Desconfio, ainda, do caráter panfletário com que o caso vem sendo conduzido nos Estados Unidos, dos políticos que estão aproveitando a chance para fazer média com o eleitorado, e da evidente satisfação com que gringos que nada têm a ver com o caso correm, feito hienas, para os seus quinze minutos de fama.

Mas o que me deixa mesmo indignada é a covardia e a falta de respeito dos ataques feitos à mãe, que morreu e não pode se defender. O que é isso?! Em que mundo estamos?! Fico revoltada com a falsidade dos que se declaram fervorosos defensores da lei, da moral e dos bons costumes, e que não hesitam em julgar e condenar essa moça que, certamente, agiu motivada por puro desespero.

Não conheci a Bruna, mas não acredito nem um pouco no conto de fadas descrito pelo pai. O que eu sei, com certeza, é que uma mulher feliz não larga o marido, mesmo que esteja morando numa cabana sem aquecimento na Sibéria, e que esteja se matando para sustentar a família. Quem acredita nisso consegue acreditar em qualquer coisa, até nas boas intenções de um pai que vem sete vezes ao Brasil e que não vê o filho.

H-e-l-l-o-o-u?! Se alguém levasse um dos meus filhos para outro país e eu conseguisse chegar até aquele país, duvido, mas duvido muito, que houvesse força capaz de me impedir de vê-lo. Eu acamparia em frente à casa, me deitaria no caminho do ônibus escolar, escalaria o prédio – em suma, faria tal banzé que, mais hora menos hora, alguém teria de tomar conhecimento da coisa. Encontrem os seguranças que a família contratou para amarrar e amordaçar o pai, e aí vamos descobrir se, de fato, alguém o impediu de fazer o que quer que fosse.

Por outro lado, chego a achar comovente a luta de João Paulo Lins e Silva. Conheço muitos pais biológicos que não fariam metade do que está fazendo para ficar com Sean. Seria tão mais simples dar de ombros e entregá-lo ao pai biológico! Em vez disso, ele está agüentando o peso de ser transformado em vilão e de ver o nome da sua família no centro de uma campanha sistemática de demolição. É um alvo fácil, o rapaz. É advogado, é rico, é conhecido: pau nele! 

Mas eu me pergunto: se ele se chamasse João das Couves e fosse marceneiro, professor ou entomologista, de que lado estaria a opinião pública? 

Vocês decidem.



Escrito por Leila às 13h17
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Cont. entrevista NÉLIDA PIÑON

Qual foi a mais marcante? A dos 10 anos (morou dos 10 aos 12 anos na Galícia), porque abriu a porta dos meus grandes mitos. Eu me tornei uma grande mestiça cultural, uma mulher múltipla. Convivia com os mitos, os deuses, com as mortes, convivi com um povo muito antigo. Eu me descobri uma mulher arcaica, uma menina arcaica. Até hoje sei que sou arcaica. Sem ser arcaica, não posso ser moderna. Este livro é um balanço, a história de uma formação. De uma brasileira, de família galega, portanto de origem de imigrante e que descobre o mistério da sua gênese, sobretudo os mistérios da sua gênese cultural, da gênese dos sentidos, da sensibilidade, das decisões estéticas.

É uma história de vida marcada por duas Carmens... A Carmen Piñon e a Carmen Balcells, duas mulheres muito importantes na minha vida. É engraçado isso. Aliás, Carmen Balcells me telefonou ontem (semana passada) e nós conversamos muito. O livro já está sendo traduzido para o espanhol. Carmen foi minha agente, apostou em mim. Foi Vargas Llosa quem me levou para ela. Carmen depois se tornou uma grande amiga da minha mãe, diz que foi uma das pessoas mais importantes da vida dela.

Santiago de Compostela recebeu sua visita bem antes de Paulo Coelho... Não conto no livro, mas fiz o caminho a meu jeito, de carro, levou 21 dias (risos). A pé eu não quis fazer. Conheço muito bem o caminho, é extraordinário. Um dia penso escrever sobre ele, do meu jeito. Ninguém diz, mas era um caminho do pecado. Você podia pecar muito para chegar no fim e ser perdoado. É como Santo Agostinho: “Fazei-me puro, senhor, mas não já”. Você precisa pecar muito, precisa conhecer a paixão da carne, se deixar levar ou dominar pelas paixões. Era um caminho onde havia muito pecado, grande prostituição. Muitos assassinatos, roubos, era perigosíssimo. Levava-se às vezes uns dois, três anos. Ia-se parando, você se tornava necessariamente um “vagabonde”, no sentido francês. Por que a guerra era tão querida pelos povos também? Porque se tornavam aventureiros. Saíam de um lugarzinho inóspito, de um casebre imundo, pobre, e ganhavam o sentido da aventura. A pessoa $tornava um aventureiro, que é o melhor estado do mundo. O melhor do mundo não é ser escritor, é ser aventureiro.

Em determinado trecho, observa que, apesar do Brasil, persistiu na literatura. Tem algum ressentimento? Ressentimento não, mas uma dor, que se deve ter. Não é possível que um escritor brasileiro aplauda a indiferença cultural do Brasil. Só um insensato. Como não sou insensata, nem parei de pensar, reconheço que o Brasil cobra um esforço acima das necessidades da literatura. Persistir na literatura é um milagre. Você depende da bondade de tantos para continuar escrevendo, de amigos, da mãe, do pai, dos amores, e de todo mundo. Todos os dias alguém bate à sua porta convocando você a desistir. E você tem de abrir a porta com bom humor e dizer, “sinto muito, mas eu não vou desistir”. Fui tentada inúmeras vezes, e nunca quis desistir. O Brasil não tem uma grande bolsa de estudos para escritor. Nunca teve, agora tem umas coisinhas aí. Nunca teve uma bolsa que ajudasse você a conhecer o mundo, que permitisse que você escrevesse um romance de dois anos. Os EUA estão cheios de bolsas. Os grandes prêmios brasileiros eram inexistentes, a coisa melhorou muito de um tempo para cá. A sensação que você tinha é que era uma espécie em extinção. Sendo mulher, provar que existia era um esforço extraordinário. Ser uma mulher bem educada não é fácil. Uma mulher com uma certa cultura, não é fácil. Com independência moral muito grande, não é fácil. A minha história não tem proteções do poder. Essa independência me custou caro. Não sou mulher de grupos, sou mulher muito solta pelo mundo. Não tenho histórias de mendicância moral. Ser escritor foi muito difícil, isso, é claro, para fazer a literatura que eu queria. Porque tenho facilidade para fazer texto erótico como muita pouca gente, e podia explorar esse trajeto e ganhar dinheiro. Não é ressentimento, é realidade. Também não estou cobrando nada, ninguém me deve nada. Eu é que devo à literatura. O prazer e a alegria que a literatura me dá são extraordinários, então valeram todos os esforços.

 

 



Escrito por Leila às 18h42
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